quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Prostituta

 


Eu era sua prostituta. A prostituta mais infame de todas, porque eu nunca recebi um real por lhe dar prazer. Eu sequer tenho o direito de dizer que eu era uma prostituta, sob o risco de ofender à categoria. Entretanto, era exatamente assim que eu me sentia.


Meu corpo estava à sua disposição. Você podia usufruir dele a qualquer hora do dia ou da noite. Você podia, se assim quisesse, furtar-me do sono dos anjos e arrastar-me para a sua cama, ao soar as doze badaladas da meia-noite. Você sequer se importava se eu sentia prazer com o que fazíamos. Bastava que você gozasse e estava tudo certo. Você podia me beijar, me morder, me chupar; enfiar o seu pau onde bem entendesse em mim. Meu corpo estava à sua disposição mesmo.


A verdade verdadeira (e indesejável) é que só as suas necessidades fisiológicas importavam. Quantas vezes eu não te liguei, para falar da minha saudade e do meu tesão, mas só nos encontrávamos quando você estava faminto? É, só a sua fome importava mesmo. Eu que desse um jeito ― qualquer que fosse ― de me manter úmida enquanto você não me procurasse.


 Eu era uma prostituta mesmo. E eu sequer sabia rosnar; sequer sabia dizer que não estava bom para mim, que me machucava. Na verdade, eu era muito pior do que uma prostituta: eu estava cega e surda de paixão e tentava convencer a mim mesma de que as migalhas que você me dava eram o bastante para alimentar-me.


Eu devia ter rosnado; ter gritado; ter te arranhado, se fosse o caso! Mas eu não deveria ter aceitado servi-lo com tamanha devoção. Sim, eu o servia. Eu era uma lobinha inexperiente e ingênua e não vi que nosso relacionamento estava muito longe de ser uma parceria. Eu era sua prostituta e só. Eu o amei? Amei. E, exatamente por isso, fui mais prostituta do que uma prostituta de fato. Porém, só agora abri os olhos para minha leseira.


Só desejo uma coisa: que meus olhos permaneçam abertos, quando o próximo amor chegar.


terça-feira, 11 de agosto de 2020

Sobre aquietar e deixar ferver

 



Minha criança, se é mesmo amor o que você sente, aquieta e espera a paixão assentar. Espera, como a terra espera a semente germinar; com a mesma paciência e doçura. Oh, criança, respira e acolhe essa semente enquanto ela germina. 

Eu a conheço, minha doce menina. Eu sei da sua fome e deste jejum prolongado, no qual você se arrasta. E eu também sei que um jejum muito longo nos faz comer até pedra. Aquieta. Respira. Diz para o seu corpo: "Eu sei que você está com fome. Mas eu gostaria de esperar por algo que realmente nos alimentasse a alma". Sei, todavia, o quanto as necessidades do corpo parecem imperiosas, sobretudo na juventude. Por isso, aviso: não é fácil persuadir o corpo a esperar para ter suas demandas atendidas. Porém, respira.

Minha garotinha, escuta o que esta bruxa anciã lhe diz: sei que você está fervilhando, mas não se apoquente. Respira. Deixa ferver. Deixa esse amor cozinhar no tempo dele. O caldeirão não vai transbordar. Eu estou aqui.

Minha criança, ouço-a ostentar o fogo dia e noite, mas eu a conheço em profundidade. Eu ouço o que você não diz e eu farejo seu segredo mais cálido: você é água e tudo o que mais quer é fluir e transbordar. Contudo, você represa a si há tanto tempo que tem medo de se afogar em suas próprias águas, caso abra as comportas. Mais uma vez, respira. É a fome que está criando todo este caos interno. Lembra: famintos, comemos até pedra.

Oh, minha pequena, quando é amor de verdade, é leve. Sendo assim, busca a leveza em tudo que concerne àquele por quem viceja neste momento.

domingo, 2 de agosto de 2020

Quando um barquinho de papel tenta conter o oceano



Créditos na imagem


Aos doze anos, aprendi a transformar tudo aquilo que se passava dentro de mim em palavras, ou seja, em literatura. Já são vinte e um anos transformando o sentir em prosa. Uma prosa que não é de botequim, mas que se tornou igualmente deliciosa e viciante. Tanto, que me acomodei: preferia dizer o que estava sentindo do que, efetivamente, aquietar e sentir. Para mim, bastava escrever sobre o amor que, porventura, sentisse e o ser amado já saberia que eu o amava. Por conseguinte,  troquei gestos por palavras vezes sem conta.

Não obstante, agora, que as palavras são imprescindíveis, já que devemos tocar o mínimo possível nas pessoas, meu Mercúrio em Capricórnio me deixa na mão. Eu até tento verbalizar o que sinto, mas todas as palavras me abandonaram. A propósito, onde estou não há palavras. Só um êxtase intenso e profundo. Mesmo assim, sobrevive nesta prosadora crônica a necessidade imperiosa de comunicar o que estou sentindo. Todavia, Mercúrio me deixa na mão mais uma vez: como comunicar o anímico? Dizer que estou apaixonada é muito pouco. Pior: é reducionista.

O que sinto é um transbordamento indizível. Não há imagem poética capaz de abarcá-lo completamente. Reduzi-lo desta forma seria como querer que um barquinho de papel contivesse o oceano em si. Impossível. Nesta vivência oceânica, eu sou o mar. E talvez o próprio mar não esteja transbordando tanto quanto eu. Apesar disso, sinto uma leveza e uma doçura, aparentemente incompatíveis com o que entendemos por transbordar.

Não sou poeta. Nunca fui. Sou uma prosadora crônica e me reconheço assim. Entretanto, de que me adianta ser uma cafetina das palavras assumida e não conseguir dizer o que estou sentindo? Para mim, é muito desafiador apenas sentir, por mais delicioso que seja esse transbordar. Ademais, para a escritora, é deveras frustrante que a sintaxe não transborde junto comigo.

Eu sinto falta das palavras. Muita. Eu gostaria imensamente de convidá-lo para um transbordamento mútuo, apesar de Mercúrio ter me abandonado. Uma parte de mim, porém, preferiria que você sentisse o quanto eu o amo, sem qualquer interferência da gramática. Ainda assim, eu insisto em dizer: “Eu o amo. Estou completamente apaixonada por você. Mas, reconheço: se você pudesse olhar nos meus olhos, eu não precisaria dizer mais nada”.


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Eu te ofereço o meu coração

Foto by: iStock

Com todos os seus medos e anseios
Com todas as suas histórias e entremeios
Com todas as suas tempestades e floreios
Com toda sua secura e arrodeios
Com toda a sua brandura e receios
Com toda a sua instabilidade e esteio
Com toda a ordem e o caos de permeio
Com todas as inspirações que antevejo
Com todo o fogo que sobejo
Com toda a facilidade em abrir-me que almejo
Eu te ofereço o meu coração.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Um corpo que clama por sentir



Neste dia frio e chuvoso de um quase junho, eu sou um corpo. Um corpo que clama por sentir. Sentir com o corpo todo, não apenas com os olhos e ouvidos. Sentir tudo o que houver para ser sentido. Preciso sentir o mundo ao vivo e a cores. E sentir vai muito além de ver a chuva na varanda, soprando sonhos em nossos ouvidos.
Eu sou um corpo. E o frio, mais do que o calor, recorda-me isto a todo instante. Eu sou um corpo que anseia por ser aquecido. Um corpo. Um corpo vivo e pulsante, que não pode ser suplantado por ideias ― por mais prolíferas que estas sejam.
Eu sou um corpo. Um corpo que, confinado, anseia por outro corpo. Um corpo que clama por sentir. Sentir tudo o que houver para ser sentido. Sentir o olho no olho; o pele na pele. SENTIR. NÃO VER. Afinal, eu sou um corpo. UM CORPO.
Eu sou um corpo. Um corpo que sente toda a intensidade da minha Lua em Leão. Um corpo que sente toda a urgência da minha Vênus em Sagitário. Um corpo que sente o menor estímulo. Um corpo tão vivo que, muitas vezes, desço aos recônditos da minha mente para não senti-lo com tanta força.
Eu sou um corpo. Um corpo que ferve, expectante. Um corpo que observa a chuva na varanda, sonhando com um café quente e forte ― em boa companhia. Eu sou um corpo. Um corpo tantas vezes negado em prol de uma sobrevivência em sociedade.
Eu sou um corpo. Um corpo que clama e suspira por liberdade, desde muito antes da quarentena que nos foi imposta. Um corpo que anseia por viver tudo o que houver para ser vivido.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Diluir é a tarefa mais difícil de todas


Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é entregar-se e entregar-se, para o ego, é fraqueza.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é confiar que todos os tesouros do seu coração estarão lá quando você retornar.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é não ter medo de desaparecer; não ter medo de perder a sua identidade enquanto estiver fundido.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é não ter medo do imprevisto; não ter medo das mudanças de curso.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é abandonar o que você queria que fosse, para viver o que é.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é correr o risco de não ter palavras ou cores para descrever o que você está sentindo.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é não saber onde você vai desaguar e, mesmo assim, seguir o fluxo.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é não ter um caminho rigidamente pré-estabelecido. Diluir é um convite para espalhar-se por todos os sulcos que aparecerem pela frente.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é movimento ininterrupto.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é a solução. Solução no sentido alquímico do termo: liquefazer cada situação dessa e permitir que ela escorra e evapore.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é deixar ir; é não apegar-se nem ao que é bom nem ao que nos faz sofrer.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é amar verdadeiramente, pois diluir é libertar a si e ao outro.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas. Diluir é confiar que o leito nunca estará seco. Assim que passar uma água virá outra, e depois outra, e depois outra, ad infinitum, pois a Fonte nunca seca.

Diluir é a tarefa mais difícil de todas, mas é o destino de todos os seres.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

(Des)encontros nas livrarias da vida


Confesso que, apesar de ser leitora voraz e prosadora crônica, eu nunca fui uma frequentadora assídua de livrarias; embora o meu tio-avô fosse o dono de uma das livrarias mais conhecidas da Paraíba: a Livraria do Luiz. De tal sorte que nunca tive vivências extraordinárias nas livrarias que cheguei a frequentar. Mas a vida gosta de nos surpreender.

Semana passada, na livraria de um importante shopping da capital paraibana, encontrei um amigo do Facebook. A bem da verdade, foi um (des)encontro. Não havíamos combinado nada e nem eu sonhava em encontrar qualquer rosto conhecido lá. Sendo bem sincera, eu tenho a (in)felicidade de andar por esta ilustre província sem encontrar nenhum rosto conhecido. Então, quando o vi na livraria, eu fiquei sem ação. E, enquanto o atendente buscava o meu pedido no sistema, arregalei os meus olhinhos de cometa para o homem ao meu lado no balcão: “É o Carlos Adriano?!”. E, em minha mente, ensaiei inúmeras vezes uma abordagem: “Oi! Você é o Carlos Adriano?”. De repente, o homem me olha com olhos tão arregalados quanto os meus. Nesse instante, fiquei ainda mais temerosa de perguntar se ele era o Carlos Adriano e a situação tornar-se ainda mais esquisita e constrangedora.

Cerca de cinco minutos depois, o rapaz trouxe a minha encomenda e eu fui para casa, ainda com a pergunta não verbalizada: “Será que era o Carlos Adriano mesmo?”. Definitivamente, eu precisava descobrir se tinha sido ele mesmo que eu vira. Por isso, mandei-lhe uma mensagem no Facebook, perguntando se fora ele que eu vi àquela tarde na livraria, mas, em princípio, não obtive resposta. No dia seguinte, insisti. Mais que isso: disse que, se de fato era ele, me perdoasse por tê-lo olhado com olhos tão arregalados. Contudo, só obtive uma resposta sua no dia subsequente: “Ah, era você também?”. Rimos juntos da situação: dois assustados numa livraria. Então, ele me disse que também desconfiara que eu era eu, mas que também não tinha tido coragem de perguntar.

“Viver dói”, disse Clarice Lispector. Sabemos todas as convenções sociais, mas, na hora de aplicá-las, reagimos como crianças estupefatas: nossos olhos se arregalam e a voz nos falta. E ficamos tão abismados com o que experienciamos, que perdemos a oportunidade de conversar sobre arte e literatura, enquanto tomaríamos um café. Tudo bem. Fica para a próxima.

Não obstante, desejo que, no próximo encontro orquestrado pelo Destino nas livrarias da vida, eu não me assuste tanto e seja mais fácil uma aproximação.

domingo, 14 de julho de 2019

Asas de chumbo

Desenho by: Sofia Cesar
Minhas asas pesam. Minhas asas me pesam. Pesam, sobretudo, porque não sei voar com elas. Asas inúteis! De que me servem? Eu quero destroçá-las! Quero esquecer que tenho asas e não posso voar. Eu as pinto, para que fiquem lindas. Lindas e inúteis. Beleza nunca aqueceu asa para o voo.

Minhas asas... pesam. São um fardo que carrego, sem poder usá-las para o que foram feitas. Se a natureza delas é serem asas, o que as impede de voar? A elas, nada. A mim, o medo de ser voo.

Minhas asas me aborrecem. Aborrecem, porque preciso cuidar para que permaneçam lindas, mesmo sem usufruir delas. De que me adianta ter asas e não ser livre? De que me serve ter asas e viver dentro de um círculo de giz riscado no chão?

Minhas asas me aborrecem. Aborrecem mais ainda, porque renascem sempre que as desfacelo. Aborreço-me sobremaneira, porque não consigo exterminá-las em definitivo. Aborrece-me ao infinito não crer que posso voar com elas.

Minhas asas são insustentáveis. São asas de chumbo as minhas. Nelas, concentro todo o meu medo de ser luz. 

sábado, 23 de março de 2019

Mente, Beta



       Minha cabeça está cheia. O caos dos primórdios se instalou em minha massa encefálica. Quantos titãs brigam por espaço dentro de mim? Quantos dilúvios escorrem pelos meus olhos? Nikola Tesla está testando a potência das minhas sinapses. Einstein afirma que o maior mistério do meu cérebro é a sua total compreensibilidade. Enquanto Moisés tenta abrir o Mar Vermelho, Ulisses tenta voltar para Ítaca. São tantas sereias cantando ao mesmo tempo, que quero matar todas. Vou passar cera em seus lábios, para que nunca mais cantem. INFERNO! Onde está Dante? Onde está esse maldito castelo que nunca chega? Que sonho dentro de sonho, dentro de sonho, dentro de sonho é esse? Se ao menos acordasse metamorfoseada num inseto. Se pudesse encontrar o meu eu do futuro num banco de praça. Meu anjo da guarda sumiu. Estará salvando uma irmã minha na Índia? Minha mente é o pior dos mundos possíveis e impossíveis. Que labirinto bórgio-sulfúrico é esse? Estou tentando dormir e não consigo. Sintagmas incognoscíveis sobrevoam minha carniça. Eu não tenho nada. Eu não sou nada. Precisarei morrer para ter uma boa noite de sono? Ao menos até o dia do Juízo Final. Quando eu defender o meu TCC, talvez eu tenha uma amostra grátis do Paraíso. Eu, tão Ródia, tremendo feito vara verde. Tudo culpa do superego. Quando teremos notícias frescas neste disco? Você não sabe amar, meu bem. Eu sou poeta e não aprendi a amar. Ninguém está nem aí para o formidável enterro de minha última quimera. Só existe passado em minha mente. Este desespero era moda em 1973. Quantos escritores já se suicidaram? Eu oscilo entre Almodóvar e Woody Allen. Eu vejo o muro ruindo, ruindo, ruindo. Usem minha cabeça para segurá-lo. Cortem-me os pés. Estes malditos sapatinhos vermelhos não param de dançar. Tudo culpa daquele milica aposentado que batucou neles com os dedos. Jacobina está cego de tanto olhar-se no espelho. INFERNO! Essas sereias não ficam afônicas nunca? Onde está o firmamento seguro do herói clássico? O Paraíso é só um asilo para idosos. E a velha se jogou do 5º andar, para encontrar o marido no inferno. Preciso de férias de mim mesma. Preciso ir para algum lugar onde eu não tenha passado. Mandem todos para o quinto dos infernos! Eu não aguento mais tantas obras inacabadas. Vou queimar todas. A começar dessas cigarras infernais na minha cabeça. Nenhuma sintaxe é boa o suficiente para mim. E Kafka achava que morreria antes de produzir algo válido. E Nando achava que ia montar uma prelazia no Xingu. E eu achava que poderia viver tranquila no centro da minha mente. Minha mente é o pior dos mundos possíveis e imagináveis. E o mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito.

sábado, 3 de novembro de 2018

Deméter estéril


A língua é tão velha, tão velha.
Às vezes tão ressequida.
Às vezes tão dura, que dói dizê-la.
Dói tanto, que nos recusamos a ouvir nossa própria voz.
Há esses dias mesmo:
Dias em que estamos tão saturados de nossa ortografia e sintaxe,
Que sequer aguentamos ver nossa letra no papel;
Não aguentamos sequer ler nossos próprios textos.
Estou assim esses dias: meio ranzinza, meio amarga.
A Musa tem me abandonado mais do que o costumeiro.
Sim, estou velha esses dias.
Muito velha.
Muito íngreme e viscosa.
Quem sabe quando os olhos se remoçarão?

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Reconhecendo o caminho


Há pouco mais de um mês, vinha eu no ônibus, recostada à janela e preocupadíssima com o trabalho de Morfologia. Então, do banco de trás, uma senhora interpelou-me:

- Minha filha, você, que é médica...

“Médica? – pensei. – Eu não sou médica.” Nesse momento, meneei a cabeça ligeiramente para o lado e esse meu gesto foi interpretado como uma negativa pela senhora, que reformulou sua fala:

- Você, que é professora, me explica uma coisa. – Parei e ouvi. Já estava quase na minha hora de descer do ônibus, mas, como fui reconhecida como professora, senti-me com o dever moral e humano de acolher sua dúvida. E ela veio: – Eu vi ali: “Crie seu caminho”. O que isso significa?

Parei, surpreendida. “Crie seu caminho” – repeti para mim mesma. Um enunciado tão claro para mim; tão óbvio. Para mim. Contudo, a senhora percebia-o obscuro.  Então, como tornar claro para ela também?  O que é criar o próprio caminho? Matutei isso por alguns segundos, antes de responder:

- Significa criar a sua existência; fazer da sua vida o que a senhora gostaria que ela fosse.

- É isso? – surpreendeu-se.

- Sim. Acho que é isso – confirmei, sem saber como aprofundar minha resposta.

A senhora agradeceu e eu, antes de descer do ônibus cheia de mafuá, olhei-a e sorri. Embora ela tenha me chamado de professora, não sinto que respondi como professora. Antes, respondi como alguém, que está ainda descobrindo como criar seu próprio caminho. Respondi, portanto, do lugar de humana.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Três dias


Foram dias de paz.
Sim, três dias de paz.
Três dias de ressaca do mar.
Três dias de receber mais do que dar.
Três dias em que mantive minha imaginação quase inativa.
Três dias para descansar da loucura da vida.
Três dias para viver.
Três dias para conhecer e revisitar os clássicos do Cinema.
Três dias para rir e se emocionar junto.
Três dias para dormir e acordar em horas atípicas.
Três dias para desacelerar.
Três dias para bebericar consciência, ao som de grandes músicas.
Três dias para amar e ser amada.
Três dias de gratitude.
Gratidão pela infinitude de sua humanidade e de seu amor.

domingo, 4 de março de 2018

Foda-se


Foda-se, se você acha que minhas lágrimas são infundadas. Eu vou chorar onde e quando quiser; sempre que sentir necessidade.
Foda-se, se você não gosta que eu fale ou do que eu falo. Eu falo do que gosto e do que me transborda. Eu sou tagarela, sim!
Foda-se, se você me acha antissocial. Eu só busco pessoas que me fazem bem.
Foda-se, se você não gosta do meu corpo volumoso. A voluptuosidade é minha e é deliciosa!
Foda-se, se você acha que eu deveria ser uma boa menina. Eu não sou domesticável. Eu sou uma anti-heroína.
Foda-se, se você me acha lenta em minhas produções. Eu me deito e me deleito com cada traço, cada letra. Eu me desobrigo a seguir um ritmo de produção fabril.
Foda-se, se você acha que eu deveria seguir o padrão midiático de beleza.  Eu não preciso seguir ninguém. Eu me faço em meu caminho.
Foda-se, se você acha que eu deveria ser forte e sorrir o tempo inteiro. Eu sou humana. Eu preciso de colo também.
Foda-se, se você acha que eu lhe devo dedicação exclusiva. Eu tenho outras pessoas, compromissos e projetos para dar atenção também.
Foda-se, se você não gosta do meu cabelo curto. Minha feminilidade não está nos cabelos. Está no meu eu mais profundo.
Foda-se, se você acha que eu deveria ter um namorado. Não quero ter um relacionamento só para dizer que tenho. Quero um relacionamento de verdade.
Foda-se, se você acha que eu deveria andar como uma boneca. Prefiro o rosto livre de máscaras e os pés nus.
Foda-se, enfim, se você acha que eu deveria ser como você gostaria que eu fosse. Eu não me permito mais ser quem eu não sou.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Do desenho que lhe prometi


Acabo de queimar o desenho que lhe prometi. Eu sei, eu o prometi a você. Também sei que, quando o prometi a você, meu sentimento ainda parecia recíproco. Tanto parecia, que convenci-me a desenhá-lo. Agora, vejo o fogo alto queimá-lo. Em breve será pó, exatamente como as minhas esperanças. Queima, coraçãozinho, queima. Queima cada lágrima, cada sonho.
Enquanto observo o laranja quente do fogo, lembro com exatidão o quanto você ficou empolgado quando viu o desenho e a carinha que você fez ao pedi-lo para mim. Eu pensei, sincera e ingenuamente, que você soubesse o que aquele desenho representava e que, justamente por sabê-lo, você o queria para si. Mas você não sabia, ou fingiu não saber, que eu queria para nós exatamente aquilo que eu havia traçado e colorido no papel. Eu, porém, tinha plena consciência disso e, agora que este amor morreu antes mesmo de nascer, não tenho mais motivação para concluir o desenho. Não tenho motivação para alimentar um sonho que era só meu. Então, resolvi rasgá-lo e queimá-lo. Afinal, se você não quer a situação que o desenho ilustra, também não darei minha arte a você. Prefiro extingui-la, assim como extinguirei o sentimento que tenho por ti.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

De Apolo à Ártemis

Imagem by: Pinterest

            Excelentíssimo 2017,

      Quero dizer que cansei. Cansei de ser yang o tempo inteiro. Cansei de ser a amazona ininterruptamente. Simplesmente cansei de lutar indefinidamente. Minha espada, destarte, será apenas para quando for imperioso usá-la. Cansei de desgastar-me. Cansei de ser quente e ativa. Cansei de ser o sol apolíneo, diurno, claro, veraneiro. Cansei de ser angulosa e querer penetrar o mistério das coisas. Cansei. Cansei de ser a guerreira valente e durona sempre. Cansei de ser retilínea, certinha, e querer avançar a cada instante.
            Em 2018, mandarei Apolo para o raio que o parta! Talvez Júpiter, regente do ano vindouro, dê um jeito nele. Enquanto isso, serei Ártemis, a lua. Serei a noite fresca e branda. Serei o inverno passivo e escuro. Serei a terra feminina e úmida. Serei curvilínea e de gestos arredondados. Estas serão minhas novas armas. Serei a água, expansiva e fluida. Serei a mansidão e a feminilidade. Serei o yin tão ofuscado esses anos todos pelo yang dominante e dominador.

Com meus mais sinceros votos de êxito,
Sara Carvalho


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O dia em que ganhei uma música

Um dia de domingo. Os domingos, geralmente, são monotônicos; terrivelmente lineares e previsíveis. Este, porém, foi atonal. Tantas coisas aconteceram, que não sei precisar qual foi a melodia predominante. Aliás, para quê fugas? Já fugi tanto! Então, até às paredes confesso: sinto o largo tornar-se allegro.  O noturno, que durou cinco anos, promete reverter-se em tocata.

Um dia de domingo. Na verdade – preciso te falar -, o movimento iniciou-se no sábado. Como uma boa filha de Saturno e de Janaína, o meu dia mais bem arranjado é o sábado. Entretanto, eu não previ que o domingo fugiria tanto assim do estribilho. Uma fuga deliberada. Um desconcerto da prolepse.

Um dia de domingo. O dia em que ganhei uma música. A música não é sua nem foi inspirada por mim. No entanto, ela me foi dada por você e agora é minha. A sua versão é, doravante, parte desta disritmia que sou eu. Às vezes, sou uma 5ª de Beethoven. Outras, uma Blue Moon, na voz da Ella. E, muito raramente, uma Meditation from Thais, na flauta de pan do Zamfir.

Um dia de domingo. O mais dissonante de todos. E esta dissonância, ao que harmoniza, caminha compassadamente para uma consonância. Consoante, dá rima. Afinal, não dá para fugir dessa coisa de pele.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Oração ao feminino


Eu saúdo o feminino em mim. Eu saúdo o que há de mulher em mim.
Eu sou uma mulher. Sou uma menina. Sou uma anciã.
Eu sou uma bruxa. Sou uma princesa. Sou uma facilitadora de Biodanza.
Eu sou exatamente quem eu quero ser.
Eu sou exatamente como eu sou.
Eu sou mulher. Sou feminina.
Eu, deste momento em diante, aceito a minha feminilidade, com toda a sua força e intensidade; com toda a sua suavidade e nutrição.
Eu sou suave, sou nutritiva; sou intensa e sou forte, como uma guerreira.
Eu sou sábia.
Eu tenho as bases que a Mãe-Terra me dá.
Eu sou a vida. Sou a criatividade, pois é a criatividade que gesta ideias; que gesta relações; que gesta transformações existenciais.
Eu sou mulher.
Eu me aceito como mulher.
Eu aceito os meus pensamentos de mulher, os meus sentimentos de mulher, as minhas sensações de mulher.
Eu aceito o meu corpo de mulher.
Eu aceito a minha afetividade e a minha sexualidade de mulher.
Eu aceito a minha capacidade de seduzir e de cativar.
Eu aceito tudo o que há de feminino em mim.
Eu aceito o meu yin tanto quanto aceito o meu yang.
Eu aceito a minha anima e o meu animus.
Eu aceito a minha força e a minha delicadeza.
Eu aceito a minha feminilidade.
Eu aceito a minha beleza própria. Aceito os meus cabelos, meus olhos, meu rosto, minha boca, meus seios, meu ventre, minha vagina.
Eu aceito os meus pés, que tocam a terra todo o tempo.
Eu aceito tudo o que há de feminino em mim.
Eu aceito a mulher que eu sou. Aceito a minha essência e todo o potencial feminino que eu tenho.
Eu aceito tudo o que há de feminino em mim.
Eu me aceito como feminina.
Eu expresso o meu feminino com o coração aberto.
Eu expresso o meu afeto, a minha sedução, o meu carisma, a minha sensualidade e a minha libido.
Eu expresso tudo o que vai no meu coração e no meu sexo, sem qualquer resistência; sem qualquer pudor.
Eu expresso a mulher que eu sou, sem máscaras, sem couraças.
Eu me expresso.
Eu expresso o feminino em mim.
De hoje em diante, eu sou a mulher que sou.
Eu me aceito como a mulher que sou, com a força que tenho, com a beleza que tenho, com os sonhos que tenho, com os sentimentos que expresso, com o verbo, que me brota do ventre e do coração.
Eu sou o feminino que existe em mim. Hoje e para sempre.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Impregnada de pele


(Carta para um futuro amor)

            Não vai ser fácil para você. Não sou mais pura. Tenho um sem-número de memórias impregnadas em minha pele. Toques profundos e intensos. Eles fazem parte da minha pele. Quem me dera pudesse arrancá-los! Seria mais fácil para você. Eu não teria tantas marcas e seu toque seria impresso em mim rapidamente. Eu seria aquela primeira folha que passa pelo mimeógrafo e fica com as letras bem nítidas. Em vez disso, tenho muitas marcas; várias impressões sobrepostas.

            Não vai ser fácil para você. Você precisará resignificar o toque, para que o seu toque se sobreponha aos anteriores. Sua sensibilidade precisará ser forte o suficiente para resgatar a minha. São camadas e camadas de toques, que precisam ser diluídas. Tenha paciência comigo. Tenha paciência com o seu toque, caso ele não seja impresso com nitidez logo de primeira. O tempo da pele é outro. Tenha paciência comigo. Lave as minhas memórias, como as baianas lavam o Bonfim.

domingo, 18 de junho de 2017

Tango para um

O bandoneon começa.
O corpo vai junto, se enrosca.
A cabeça cede
E os cabelos negros se espalham.
Não há vento.
Fogo é o que há.
O tronco se arqueia.
O peito se lança, se abre.
A pélvis, solta, entregue...
Ah, a pélvis chicoteia o vento!
O corpo inteiro é prazer.
E dança.
Não me governo mais.
É o tango.
Eu sou o tango.
Giro e voo neste ambiente minúsculo.
Suavemente, desço ao chão.
Não há testemunhas.
O fogo é meu e para mim.
Estou totalmente entregue ao prazer e ao tango.
Então, embeveço, entorpeço, crepito inteira.
O corpo se enrola, se embola.
O corpo inteiro é prazer.
Levanto-me, serpente, outra vez.
O bandoneon cessa.
O prazer continua.

terça-feira, 21 de março de 2017

À sua gargalhada




       Ouvir sua gargalhada, depois de tanto tempo, foi o meu presente do dia. Uma comoção inesperada tomou-me. Arrancou-me sorrisos também. Arrancou-me o brilho esquecido do olhar. Do resplendor interno, brotaram lágrimas ao sol do meio-dia. Lágrimas atípicas. Lágrimas brilhantes, doces. Lágrimas de Amor.
          Ouvir sua gargalhada, depois de tanto tempo, foi o meu presente do dia. Uma quinta-feira como outra qualquer. Quem poderia imaginar que tamanha emoção me tomaria? Uma quinta-feira como outra qualquer.  Mas a sua gargalhada não foi como outra qualquer. Foi singular.
          Ouvir sua gargalhada, depois de tanto tempo, foi o meu presente do dia. Uma gargalhada. Uma, apenas. Uma gargalhada tão singela e despretensiosa, tão espontânea e sincera, que mudou o meu dia.
        Ouvir sua gargalhada, depois de tanto tempo, foi o melhor presente que eu poderia ter recebido. Agradeço por ter podido estar presente, para ouvi-la, saboreá-la e comover-me com ela.