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sábado, 3 de novembro de 2018

Deméter estéril


A língua é tão velha, tão velha.
Às vezes tão ressequida.
Às vezes tão dura, que dói dizê-la.
Dói tanto, que nos recusamos a ouvir nossa própria voz.
Há esses dias mesmo:
Dias em que estamos tão saturados de nossa ortografia e sintaxe,
Que sequer aguentamos ver nossa letra no papel;
Não aguentamos sequer ler nossos próprios textos.
Estou assim esses dias: meio ranzinza, meio amarga.
A Musa tem me abandonado mais do que o costumeiro.
Sim, estou velha esses dias.
Muito velha.
Muito íngreme e viscosa.
Quem sabe quando os olhos se remoçarão?

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Disritmia

            tamborete de madeira Foto gratuita
        Desde que iniciei o curso de Introdução à Métrica Latina, um mês atrás, tenho pensado bastante sobre o ofício de escritor. Na análise de poemas alheios, percebi que eu não tenho ritmo. Melhor dizendo: meu ritmo é uma disritmia. Aqui e acolá há uma quebra na composição e, como já disse o meu professor de Métrica, “um pé quebrado mata não só o verso, mas também o poeta”. Todas estas (re)leituras de um banquinho claudicante têm me trazido o samba de uma nota só: se eu não tenho ritmo, como posso ter escrito tantas coisas (e até publicado!) ao longo destes dezoito anos, desde que compus meu primeiro texto ficcional?
          Hoje, em pleno carnaval, eu, me deliciando com o romance de um outro professor meu, percebi que, para cada tipo de cena, ele usa uma linguagem específica. Para as cenas de amor e sexo, uma linguagem carinhosa, repleta de eufemismos, metáforas e até diminutivos, os quais dão ao texto um tom mais terno e doce. Nas cenas de música, uma linguagem bem mais enlevada, exprimindo todo o êxtase que a música faz ressoar em si e no protagonista do romance. Já nas cenas de vingança, a linguagem é mais bruta, mais crua e, em alguns momentos, até grotesca. E toda esta multiplicidade de acordes e tons me fez perceber a monotonia dos meus textos, que trazem um único tom, uma única linguagem, numa linearidade sem fim.
          Esta não é a primeira crise minha como escritora. Minha carreira, se assim posso chamá-la, está entre a 5ª sinfonia de Beethoven e a Tocata e Fuga, de Bach. Contudo, este ano estou me atendo mais aos pés, que antes não via. Ou, antes, não ouvia. Eu até me detinha na tecitura do texto, mas nunca havia reparado no ritmo – ou na ausência dele. Esta ampliação do ouvido do olhar veio a partir do curso de Métrica, que, embora seja voltado para a poesia, tem me mostrado na prosa, especialmente na minha, a musicalidade que meus olhos eram incapazes de reproduzir – por pura ignorância.
          Certamente, depois de tantos acordes, eu acorde. Quiçá seja uma escritora melhor. Sem dúvida não serei, porém, a mesma.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Carta de Dispensa



      João Pessoa, 14 de fevereiro de 2013.



      Senhor Narrador


      Venho através desta comunicar-lhe que não estou satisfeita com os seus serviços. O senhor, por motivos que me são desconhecidos, tem se mostrado deveras preguiçoso, formulando frases óbvias e superficiais. No momento de sua contratação, eu pessoalmente lhe dei todas as informações cabíveis e necessárias acerca do enredo e das personagens para que o senhor tivesse condições de construir um texto profundo e instigante, honrando o cargo de narrador onisciente que lhe fora conferido. O senhor, todavia, mostrou-se mesquinho, retendo as informações para si.
      De minha parte, reconheço que lhe dei orientações precisas para ser misterioso, para usar de metáforas e demais figuras de linguagem a fim de dar um caráter onírico ao romance. Porém, o senhor há de convir que entre mesquinhez e mistério existe uma notória diferença.
      Leitores contratados para acompanhar o processo de criação do romance são unânimes em reclamações quanto ao seu comportamento linguístico e literário e sugerem transformações urgentes. Eu estou de pleno acordo com eles, pois o senhor tem feito jus a tais reivindicações.
      Em virtude dos inúmeros e-mails que lhe mandei convocando uma reunião sem, contudo, obter resposta, fez-se necessário recorrer a medidas mais imperiosas. Portanto, esta é uma carta de dispensa.
      Tão logo o senhor devolva este documento assinado, eu entrarei em contato com um jornal de grande circulação para colocar um anúncio divulgando a abertura de uma vaga para o cargo de narrador onisciente.
      Fugindo dos moldes formais desta, confesso: rezarei para conseguir um narrador mais eficiente e disposto a trabalhar que o senhor.


      Atenciosamente
      A Escritora


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Prece do Escritor


Eis meu lápis à mão.
Estou aqui, defronte ao papel,
Disposto a trabalhar.
Inspiração, vinde em meu auxílio!
E que eu esteja alerta para perceber-te
Até na ideia mais ínfima
Pois toda ideia pode ser lapidada e desenvolvida.
Mas, se não puder, só saberei se tentar.
E que eu não receie em tentar!
Que meu amor pelas letras
Seja renovado todos os dias
A cada linha lida ou escrita.
Que o lápis ou a folha em branco
Jamais configure um obstáculo
Mas sim uma oportunidade de disseminar ideias
E promover crescimento.
Por fim, que eu use meu dom para contribuir
Com a constante evolução humana e social.
Assim seja.

Vinte e Sete de Fevereiro de 2012

domingo, 25 de dezembro de 2011

Diálogos Internéticos na Literatura


         A Internet veio. Trouxe a praticidade e encurtou distâncias. Uma maravilha da revolução tecnológica! Mas nem tudo é perfeito.
         Se por um lado o computador e os programas de edição de texto pouparam-nos tempo e alguns dedos doloridos (outrora escravos da velha máquina de escrever mecânica), a Internet tirou toda a poesia dos diálogos com os programas de mensagens instantâneas. Para o dia a dia, confesso ser prático (praticidade é a palavra de ordem), mas para a literatura, perde a cor.
         Como escritora, sou adepta daqueles encontros furtivos, de diálogos sobre a relva ou de frente para o mar. Sim, sou romântica, gosto de romances históricos. Tento preservar sua poesia nos romances contemporâneos.
         Sejamos bem sinceros conosco mesmo, diálogos internéticos transcritos num romance parecem um peixe fora d’água. Além de quebrar o clima do gênero. Transcrevendo-os em forma de narrativa, perde-se o dinamismo de uma conversa. Colá-los exatamente como aparecem na tela do micro é como pôr um adesivo no meio de um desenho feito à mão. Pelo menos é essa a impressão que tenho.
         E cá estou eu escrevendo um romance e me deparo com este tipo de diálogo, sem saber como encaixá-lo de forma poética em minha prosa.
         Fico a pensar: o que será dos novos escritores neste mundo onde os diálogos próximos estão cada vez mais distantes e menos poéticos? A saída será o saudosismo?
         Enquanto a resposta não vem, vou ficar aqui queimando minha criatividade para ver se recebo alguma solução via sinal de fumaça.

Vinte e cinco de dezembro de 2011

sábado, 4 de junho de 2011

Rascunho


         Sobre o quê eu posso escrever? Amores não correspondidos? Não. Solidão? Não. Carência? Dá no mesmo. Xi, meus assuntos estão se esgotando.
         Não quero escrever sobre uma coisa que ainda não tenho nem reviver algo que deve ficar no passado. Você sabe o que isso significa? Mas não importa o assunto, o texto saíra sofrível. Afinal, tanto a carência como o saudosismo (lê-se cutucar velhas feridas) machucam o mesmo tanto.
         Eu não estou sem inspiração. Só não queria escrever novamente sobre estes assuntos que me desgastam tanto. Você entende? Também estou sem paciência para escrever textos neutros que nada têm a ver com o que estou sentindo só para provar que a escritora está ativa dentro de mim.
         Verdade seja dita: foram poucos os textos neutros que escrevi nesta vida. Talvez só as redações para o colégio e olhe, olhe.
         Acho que vou publicar este rascunho só para vocês verem como é difícil a vida de um escritor. Ainda mais a de uma escritora que desde seu primeiro contato com a literatura decidiu escrever sobre si mesma, tendo seus pensamentos e sentimentos convertidos em verso e prosa.
         Nem todas as pessoas agüentam ler textos sobre o mesmo tema por um longo tempo seguido, ainda mais quando se trata de coisas tristes pelas quais todos já passaram ou ainda vão passar. Por isso estou evitando (ao máximo) escrever sobre os temas que citei no início deste rascunho: para poupá-los.
         É isso. Até mais.

domingo, 20 de março de 2011

Declaração à Língua

         Amo o português (o idioma) pelo simples prazer de amá-lo. Reconheço, sim, eu reconheço suas complexidades. Mas você, que percorre estas linhas, vai me dizer que não sente um indubitável deleite ao ler um texto um tanto quanto romanceado, onde frases bem vestidas e elegantes bailam sobre o papel?
         Eu confesso – em qual mídia você quiser, ou mesmo oralmente – que às vezes as ideias surgem tão freneticamente em meu pensamento consciente que sou acometida por uma leve (para atenuar meu pecado) preguiça. Porquanto, deixo a mão correr livre e não me preocupo em elaborar melhor as orações.
         Sinto meu rosto enrubescer diante da vergonha por tal hábito, mas preciso reconhecer: estou dando um péssimo exemplo, principalmente por encontrar-me na condição de escritora.
         O português, apesar de às vezes – quase sempre – eu não lhe dar a atenção e o carinho devidos, sabe que eu o amo com toda a força do meu ser. Sabe, outrossim, que nada vai furtar o brilho dos meus olhos e o júbilo de minh’alma ao escrever um texto como este ou qualquer outro feito com amor.
         Antes de escrever o último ponto, quero agradecer-lhe por fazer-me companhia há já metade de minha vida. Crescemos bastante juntos e esta situação perpetuar-se-á. Ponto final.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O que me Motiva a Escrever

         Amar mergulhar nas histórias dos personagens. Sentir-me na pele deles;
         A vontade, ou melhor, o sonho que tenho desde a infância de ser escritora profissional;
         Um desejo inerente de ajudar as pessoas através das histórias. Não que eu queira escrever livros de auto-ajuda. Não. Eu quero escrever romances que, de alguma forma, ajudem as pessoas a crescerem;
         Observar o fascínio que grandes escritores como Paulo Coelho e Dan Brown exercem sobre as pessoas;
         Sentir-me revitalizada e plena cada vez que me dedico com constância a uma história;
         A felicidade que sinto cada vez que concluo um trabalho e percebo que ficou bem feito. Não apenas por elogios que possa vir a receber, mas também por uma sensação que experimento em meu íntimo;
         Saber que escrever é minha vocação e missão neste mundo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Escrivaninha

Este texto é um pouco antiguinho, mas é o registro de um momento muito importante na minha vida. Lembrando sempre que o texto é fictício, só a emoção de ganhar a primeira escrivaninha que foi real.
Quero dizer aos escritores que o que nos move é justamente o sonho. E é o amor pelo que fazemos que torna nossos textos bons, além de muito, muito trabalho.
Uma ótima quarta a todos!
Abraços!

A Escrivaninha

      Ela chegou em casa suada, foi um jogo difícil. Ela e as amigas enfrentaram umas grandalhonas numa partida de vôlei e venceram! Ela seguiu para o banheiro, tomou uma ducha e foi para o quarto.

      Ao abrir a porta, qual não foi sua surpresa. Ela estava lá: uma escrivaninha novinha! Cadeira chique, porta-lápis e uma luminária. Ela, Mariana, correu para a sala, gritando de felicidade.
      A empregada a olhava admirada, ou seria assustada?
      A mãe de Mariana assistia a novela das oito, esparramada no sofá, enquanto o pai calculava as contas do mês.
      Mariana entrou alvoroçada na sala!
      - Quando ela chegou? - perguntou Mariana.
      - Ela quem, meu amor? - o pai inquiriu, sem tirar os olhos da papelada.
      - A escrivaninha. Quando ela chegou? Na hora que eu cheguei da escola ela não estava lá no quarto.
      - Nós a compramos hoje à tarde e escondemos no escritório do seu pai. Aproveitamos que você foi jogar e a colocamos no seu quarto.
      - Vocês são os melhores pais do mundo!! Vocês vão ver! Eu vou ser uma grande escritora! Meu nome vai aparecer nos jornais, televisão, internet!
      - Vamos com calma, meu amor.
      - É, não queremos que sofra.
      - Eu não vou sofrer! Eu vou ser muito feliz!  E famosa! - Mariana foi correndo para o quarto estrear sua escrivaninha.
      - Tá bom, filha - disse a mãe, vendo a filha se afastar.
      - Deixa ela sonhar. Todos nós precisamos de um objetivo na vida. Se ela persistir, porque talento ela já tem, tenho certeza que será uma grande escritora.
      - Pode ser.
      Ambos continuaram com o que estavam fazendo antes do foguete eufórico chamado Mariana entrar na sala.