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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Reconhecendo o caminho


Há pouco mais de um mês, vinha eu no ônibus, recostada à janela e preocupadíssima com o trabalho de Morfologia. Então, do banco de trás, uma senhora interpelou-me:

- Minha filha, você, que é médica...

“Médica? – pensei. – Eu não sou médica.” Nesse momento, meneei a cabeça ligeiramente para o lado e esse meu gesto foi interpretado como uma negativa pela senhora, que reformulou sua fala:

- Você, que é professora, me explica uma coisa. – Parei e ouvi. Já estava quase na minha hora de descer do ônibus, mas, como fui reconhecida como professora, senti-me com o dever moral e humano de acolher sua dúvida. E ela veio: – Eu vi ali: “Crie seu caminho”. O que isso significa?

Parei, surpreendida. “Crie seu caminho” – repeti para mim mesma. Um enunciado tão claro para mim; tão óbvio. Para mim. Contudo, a senhora percebia-o obscuro.  Então, como tornar claro para ela também?  O que é criar o próprio caminho? Matutei isso por alguns segundos, antes de responder:

- Significa criar a sua existência; fazer da sua vida o que a senhora gostaria que ela fosse.

- É isso? – surpreendeu-se.

- Sim. Acho que é isso – confirmei, sem saber como aprofundar minha resposta.

A senhora agradeceu e eu, antes de descer do ônibus cheia de mafuá, olhei-a e sorri. Embora ela tenha me chamado de professora, não sinto que respondi como professora. Antes, respondi como alguém, que está ainda descobrindo como criar seu próprio caminho. Respondi, portanto, do lugar de humana.

sábado, 19 de novembro de 2011

Partícula


         Eu sou cromossômico. Sou mínimo na vastidão. Um zigoto que deu certo. Uma semente de carvalho que anseia por raízes. O pássaro depenado dentro do ninho que sonha com o voo. Sou uma partícula do mundo. Pareço ínfimo. Entretanto, o mundo não existiria dessa maneira sem mim. Seria totalmente diferente. Se tirássemos um pouco de azul, a Terra não seria tão “planeta água”.
         O mundo é um sem-número de partículas como eu. Mas a maioria se isola do grande todo. Existe, usufrui, mas não se sente integrado. Às vezes nós nos sentimos assim quando o mundo não quer seguir nossas vontades. Eu mesmo me peguei pensando assim hoje. Mas se eu tenho o direito de chorar, de ser antipático, de sorrir e de festejar, por que o Universo também não tem? Não é o mundo que tem que se adaptar às nossas oscilações de humor. Nós é que precisamos aceitar os seus períodos de vida e morte. A morte não é só extinção, é qualquer baixa de humor, chuva, trovões. Sabe quando o dia está nublado, cinza? É a natureza dizendo que está triste, sem querer muito contato.
         A parte renova-se no todo. Como uma folha, que só permanece viva enquanto na árvore. No chão, murcha e seca, até ser absorvida pela Terra. A vida jamais é desperdiçada. Ela simplesmente é direcionada para outro lugar.
         Quando me sinto cansado e desanimado, tenho certeza que me desliguei da fonte. Quis criar uma vida paralela à Vida. Então é hora de voltar para o todo para beber desta. Afinal, eu só posso me sentir vivo se estiver em contato constante com a Vida. Sem ela somos folhas secas: estamos ali ocupando espaço enquanto nosso último resquício de vitalidade não é absorvido para gerar novos brotinhos.
         Se sou parte, então não posso me desligar do todo. A Vida é uma só. Não existem vidas paralelas que possam ser plenas e felizes.

Dezoito de Novembro de 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

A Menininha e o Fantasma

Esta é uma historieta bem simples, como as que contamos para as crianças. Mas esta história não é só as palavras externas. Permita-se mergulhar nas entrelinhas para ver o fundo do lago. Espero que gostem. Beijos!


         Era uma vez uma menininha. Toda noite quando ela desligava o abajur para dormir um fantasma vinha perturbá-la. A menininha, sentindo-se impotente, chorava até dormir por não ter coragem de enfrentar o fantasma. Durante o dia, acordada, a menininha pedia forças para confrontá-lo.
         Assim ela cresceu: à noite deixava-se abater pela presença do fantasma e de dia pedia forças para resistir às suas palavras.
         Uma noite, o fantasma veio visitá-la como de costume. Desta vez, entretanto, a menininha sentiu-se tomada por uma grande força e pediu:
         - Segura minha mão?
         - Eu nem soltei, menina – disse a Força.
         A menininha então voltou-se para o fantasma:
         - Vá embora!
         - Por que eu iria? Você continua sendo boba e ingênua.
         - Não! Eu cresci. Vá embora! Não preciso de você.
         A segurança da menininha transformou-se em luz e não se viu mais o fantasma.
         - Obrigada! – Ela abraçou a Força.
         - Estarei sempre aqui. É só me chamar.
         A menininha sorriu e nunca mais deu ouvidos ao fantasma.


Vinte de Outubro de 2011

sábado, 27 de agosto de 2011

Cristal de Vidro

         Sim e não. Sim ou não. Não existe espaço para um talvez. Talvez é a resposta automática de quem não sabe o que quer. Quando alguém faz-nos uma pergunta, a resposta já vem, seja do coração ou do cérebro. Porém, não raro, hesitamos em aceitar aquela resposta e pronunciamos o talvez. 
         O homem (a humanidade) é bicho complicado, condicionado, quase sempre, à opinião alheia. A emoção e o corpo dizem sim, mas a razão – no momento mais crucial – lembra-se da opinião – que talvez – sua mãe, seu vizinho, sua tia-avó, seu papagaio venham a ter e recusa-se a ir. E quem comanda o corpo é o cérebro, portanto, se ele disser: “Não, eu não vou!”, nem o seu mindinho do pé sai do lugar. Mas o cérebro, apesar de agir como um deus maior do nosso universo particular, não é onisciente, isto é, ele não sabe – sempre – o que é melhor para nós. Sendo bem sincera, às vezes ele é muito medroso: “Não, eu não quero macular a minha reputação”. Grande reputação! Se você se acostumou a dizer não quando na verdade queria dizer sim só para não matar sua tia-avó (já com cem anos e cuja voz já está sumindo e a audição nem se fala!) de desgosto, então sua reputação é mais falsa do que um cristal de vidro.
         O ser humano é falso, uns mais, outros menos, mas todos são. E pior: são falsos consigo mesmos, visto que o outro – na hora pelo menos – não tem como comprovar a falta de veracidade de suas afirmações.
         Sim e não. Não podemos viver só de sim, senão somos bestas, passivos, subservientes demais. Também não podemos usar só o não, caso contrário seremos os chatos, antipáticos, caretas. Saibamos, então, equilibrar os dois e quando utilizar cada um deles. Procuremos (eu estou mais que inclusa nisso) sermos sinceros conosco antes de sermos com terceiros. Sempre vai ter quem fale mal de nós, mesmo que seus argumentos sejam uma máscara de papel machê que usa para acobertar sua inveja. Saibamos, outrossim, reconhecer quando a razão estiver com a razão.
         Porquanto, de quê adianta agradar aos outros se não abastecemos regularmente nossa reserva interna de amor-próprio? É fato irrefutável que nunca seremos felizes se apenas fizermos o que é aprazível para as pessoas que nos são caras (e dentre estas não está quem deveria ser a primeira da fila: nós). Afinal, a felicidade consiste em amar a nós mesmos, e, quem ama, procura o bem-estar do objeto de sua afeição. Com isto não estou querendo dizer para colocar-nos num pedestal, ou sermos narcisistas. Simplesmente quero dizer que o elogio, a aceitação e a felicidade precisam nascer de dentro para então irradiar para fora, só assim não ficaremos condicionados aos “achismos” de outrem.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sinuosidade


Sensível. Eu sinto, percebo-te.
Flexível. Abro-me. Permito-me.
Compreensível. Aceito-o.

Maleável. Estou aberta a novas ideias.
Dobrável. Admito-as e sou capaz de adotar.
Amigável. Desarmo-me quanto ao outro.

Sinuoso.  Reconheço a não-retidão da vida.
Diverso. Assumo que há mais de uma ideia correta.
Oposto. O diferente não é sempre ruim.
Certo. A certeza tem muitas facetas.

Opção. Escolho entre novos e velhos conceitos.
Dualidade. As partes formam o todo.
Emoção e Razão. A alma plena.
Serenidade. Ideias que se aplicam a cada situação.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Meditação à Tardinha


         Fiz errado no passado? Não importa, já fiz. O que foi feito não pode ser desfeito, tampouco refeito. O que será, pode. O presente determina o futuro. O futuro pode ser igual ao passado ou não. Quem decide é você. Você comanda a máquina do seu destino.
         O passado deve ser esquecido? Jamais. Ele lhe colocou onde está agora. É um registro. Mais: é sua consciência, que lhe faz lembrar o que não deve ser repetido, se não quiser obter os mesmos resultados. Deixe o passado onde está. Guarde-o numa gaveta. Mas não o apague. Ele lhe trouxe até aqui; formou sua personalidade. Seja grato por todos os “nãos” e “quases” que enfrentou. Eles o fizeram compreender o que não estava dando certo, abriram seus olhos para a necessidade de mudança. Agora, em agradecimento, liberte-o, permita a ambos experimentar o doce prazer de seguir adiante.
         Observe o presente. Lembre-se do significado atribuído ao termo. Aceite-o como tal. Não existe máquina que nos faça voltar ao passado, mas existe uma capaz de mudar o futuro: o presente. Agora que se libertou do passado, aceite o presente, acolha-o, e agradeça esta oportunidade de mudar o que ainda não encontrou um encaixe, de aparar as arestas.
         O futuro? Não tenho nada a revelar. Guarde sua ansiedade. A propósito, se lutar no presente, não se preocupará com o futuro, visto que estará ciente de que plantou as sementes pelo caminho. Assim sendo, só resta esperar que frutifiquem. 

sábado, 6 de agosto de 2011

Árvore-pássaro

Emergindo da Escuridão - tela minha (óleo s/ tela)


         Sou uma árvore. Meu tronco é largo e minhas raízes, fortes, estão bem fincadas na terra. Minha copa é frondosa, galhos de diferentes espessuras sustentam-na. Eu tenho estabilidade como poucos irmãos meus da flora. Até acho belo o balanço das hastes infantes ao sabor da brisa, mas sempre me mantive firme. Eu sou uma árvore imponente, um poderoso carvalho, não posso me curvar diante de qualquer brisa.

         Eu sou o vento. Sou livre e vou onde eu quero. Não tenho obrigação de ser constante, eu sigo meu espírito. Minhas velocidade e intensidade dependem do quão feliz eu esteja. Quanto mais rápido, mais feliz estou. Adoro cantar para as hastes pequeninas dançarem. Porém, tem uma árvore que admiro muito. Ela é grande e forte, e são poucos os seus galhos que dançam ao ouvirem minha música. Às vezes tenho vontade de ser firme e estável como ela.

         Um dia, o vento foi conversar com a árvore. Depois de alguma resistência, esta permitiu que sua copa bailasse. Mas os galhos grossos eram rígidos e apenas os mais finos conseguiram dançar. Todavia, a árvore gostou da sensação de ter suas folhas assanhadas pelo vento.
        Com o tempo, ambos se tornaram amigos e as visitas do vento se tornaram uma constante. A árvore foi se soltando mais, deixando-se envolver pelo vento. Apaixonou-se. Mas o vento não podia vir pra terra, ele era livre demais para fincar raízes no solo.
         Foi então que a árvore decidiu virar pássaro, assim poderia acompanhar o vento e gozar de uma mesma liberdade.

         Eu, a árvore, estou abrindo mão de meus padrões rígidos e inflexíveis. Minha copa está começando a ganhar asas. Devo confessar, contudo, que minhas raízes ainda estão bem presas ao solo, porém o processo de libertação já teve início.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Questionamento Interno

Antes quero abrir um parêntese para uma observação: este é um texto intimista, isto é, sobre mim. Apesar de ser filosófico, ele não é genérico, isto é, pode não servir para todos. O texto fala sobre o medo de ser amado, mas as respostas dadas às perguntas, são inteiramente pessoais. Isso quer dizer que, caso você também nutra este medo, o seu pode não ter a mesma origem que o meu. Entenderam? Espero que gostem! Kissus =)


         Medo de ser amado. O que é o medo, afinal? É algo que nos paralisa e nos finca no chão, proibindo-nos de dar um passo sequer, seja para frente ou para trás. Criamos raízes no ponto em que paramos. Lembramos do passado, sentimos as emoções ruins que nos prenderam ao solo. Enquanto isso nós olhamos para o futuro com o pesar de quem não pode ir brincar no horizonte com as borboletas, quando estamos minimamente bem para enxergá-las, mesmo que difusas e em preto e branco.
         Já sabemos o que é o medo. Então por que o medo de ser amado? De onde ele provém?  
        Poderia alegar que foram os fracassos dos relacionamentos de outrora. Mas, caso não os tenha tido, que outro pretexto poderia utilizar? Por que somos acometidos pelo medo? O medo vem quando nos vemos diante de algum perigo real ou imaginário. Ou ainda pela possibilidade – mesmo que remota – de sofrer novamente um dano de outrora. O que passaste no passado que hoje te faz sentir este medo de ser amado? É realmente medo de ser amado? Ou seria medo de ser usado? O que fizeram contigo? O que fizeram com tua visão do amor? Melhor dizendo: o que fizeram com tua visão de exteriorização de amor e desejo? O que fizeram com tuas utopias? Transformaram-na em instinto, o que os literatos chamam de zoomorfismo? Eles foram tão animalescos assim contigo? Por isto tem medo de que estes “animais” se aproximem de você novamente?”
         Existe um único princípio para a natureza: os animais só atacam quando tem fome ou quando se sentem ameaçados. Percebesse agora? Eles não queriam machucá-lo, apenas saciar sua fome. Não estou aqui para defendê-los, de forma alguma. Eles não agiram corretamente. Mas quem disse que um animal guiado pelo instinto age da maneira certa? Os irracionais sim, pois eles só buscam sua própria sobrevivência. Os ditos racionais, entretanto, não pensam coisa alguma, e procuram prazeres da mesma maneira que um selvagem busca alimento. Não sabem eles, que o prazer é uma invenção humana e, portanto passível de muitos erros no projeto. E, quando o raciocínio é deixado de lado e o instinto assume, as coisas desmoronam de vez, visto que o animal dentro de nós não conhece nada de cálculos ou é capaz de ler qualquer manual de instruções.
         Então chegamos ao ponto que talvez esclareça toda esta questão e dissipe este seu medo. Seu medo não seria o de ser amada por alguém que fosse semelhante aos “animais” do seu passado? Pense um pouco: aqueles a quem se afeiçoa não poderiam ser “animais” também? É uma faca de dois gumes. O seu juízo também é passível de enganos. Por que não permite uma aproximação? Mas não descuide de suas garras, pode ser que precise usá-las.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vitral

Desenho meu feito com lápis de cor aquarelável
Não estou me encontrando,
Estou me buscando,
Reinventando.

O vitral estou desmontando,
Os cacos coloridos separando,
Os fragmentos de mim peneirando.

Os pedaços excluídos isolando,
O restante reorganizando.
Os novos escolhidos procurando,
Para nas lacunas ir colocando.

O novo eu está se formando,
O vitral se concretizando.
Minha vida? Melhorando.
E a felicidade vem despontando.