Mostrando postagens com marcador prosa poética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prosa poética. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de dezembro de 2011

Monólogo de Uma Saudade


         Não sei que sentimento me toma hoje. Ou talvez saiba. Talvez seja uma saudade doída. Daquelas bem bravas que parece dilacerar o coração do homem. Pobre coração imaturo! Ensaia um sofrimento tão desproposital quando não estás aqui. Quando nem em pensamento estás sólido, presente. Minha mente tenta, mas a saudade torna-te tão pueril. Necessito-o em suor e emudecimento. Os pensamentos me escapam das mãos. Devaneios, como água, escorrem por entre meus dedos tortos. Se tudo isso é saudade, nunca senti uma saudade tão gostosa como o fel. Um clarão na noite de um terrível paradoxo. Que queres com esta tua ausência? Extrair uma chuva torrencial na secura de minhas palavras? Pois confesso-te que consegues. Nada consigo fazer além de escrever palavras secas e úmidas. Verbetes ousados que desmentem a felicidade fingida. Os mesmos verbetes os quais manipulo numa tentativa fracassada de persuadi-lo de que estou bem. Mas tende certeza: se estas palavras cristalizam minhas lágrimas em tua presença distante, com quanto mais loucura meu coração saltará aos lábios quando tua ausência tornar-se próxima.

Trinta de Novembro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Ecos na Noite Escura


         No vazio da minha mente ecoa uma pergunta. Sempre a mesma a perturbar meu fraco juízo. Um uivo que ressoa por todo o vale e mais além. Mas a reposta nunca aparece na noite escura. Nem ao raiar do dia. "A luz que não é vista na escuridão certamente será ofuscada pelo sol" – ouço dentro de mim. Meus olhos, pesados, cerram um instante em concordância.
         Existe meio-termo? – eis a questão. Existe uma distância mensurável entre o oito e o oitenta? Alguns quilômetros... Talvez muitas léguas náuticas. Vários náufragos pelo caminho. Como eu. Ou quem sabe isso seja apenas ideias impregnadas que repetiram para nós em ladainha. Uma tentativa de controlar o espírito selvagem dos homens.
         A vontade é ingênua e impulsiva. Sua maneira não é a melhor. Os frutos não serão os almejados. Muito aquém disso. A regra (sociedade) impõe outro modo. Não me agrado. Na verdade, não me conformo. Custo (e não consigo) entender porque precisamos fazer o oposto do que queremos. Por que temos – desde que nascemos – o dever de perpetuar uma imagem contraditória? Não faz sentido.
         Tudo poderia ser tão mais fácil se eu pudesse seguir minha alma. O problema (sempre tem um) é que não consigo encontrá-la. Está tudo muito escuro lá dentro. E aqui fora também. Vejo os olhos das corujas me observando com seu ar de “velhas sábias” da floresta. Prontas para recriminar a mínina falta.
         A vontade e a regra brincam de cabo de guerra e eu sou a bolinha no centro. Quando a primeira vence, ponho tudo a perder com minha precipitação. O fruto é amargo. A lama cheira mal. Quando é a última, sinto-me infeliz, mesmo que o fruto seja doce e a grama macia.
         Nós lutamos por tanta coisa, mas não temos coragem de vasculhar o breu para libertar nossa alma. Não temos tempo para ouvi-la. O que ela quer? É o mesmo que a mente e o mundo exterior? “Ela quer a felicidade construída, como sapatinhos costurados à mão” – alguém sussurra na noite. “Ela não quer promessas “certas”. Nem abismos (talvez) sem fim” – o vento uiva.
         Tento, mas algumas coisas simplesmente não descem goela abaixo. Por que não podemos romper com o padrão? Simplesmente me irrita essa mania de complicar tudo. Queria seguir a ordem natural das coisas. Mas sempre temos que colocar empecilhos no caminho. Espalhar tachinhas pelo chão para ferirmos o espírito mais adiante.
         Não sei se um dia vou me render. Espero que não. Quero encontrar esse meio-termo. O refúgio da alma.

Doze de Outubro de 2011

domingo, 9 de outubro de 2011

Úmido

Um textinho que escrevi em parceria com meu estimado Sandoval Fagundes, o primeiro de muitos (eu espero)! E que dedico especialmente ao meu amigo e irmão mais velho, Anderson Meireles. Que gotinhas úmidas deste texto possam respingar não no teu coração, mas na tua alma. Espero que vocês gostem. Kissus!




         As ideias estão aqui dentro. Posso senti-las borbulhar. É lindo. Não sei como exprimir. Sinto seu colorido e sua energia, mas ainda não consigo vislumbrá-las, pois estão na parte mais funda do lago.
         As ideias estão na superfície do colorido da tua energia. Elas borbulham para dentro de tua imaginação como um lago reflete e traz o céu para dentro de si!
         É uma sensação muito boa. Sinto-me viva. O terreno, antes árido, está úmido. Úmido como não tenho lembrança de já tê-lo visto estar um dia. E se o lago reflete a umidade, se o colorido já tem sua energia e a vida é mais que um efeito, toda lembrança será um mar dentro do sertão.
         Posso sentir a alma vicejar. Ela baila ao som tranquilo do lago. E canta com o vigor de uma queda d'água. Ela tem muito a dizer. Mas não precisa usar palavras para isso. A vida que brota e transborda de seus poros diz todas as coisas mal exprimidas pela fala.
         É incrível como uma coisa tão imensa possa ser tão sutil. É vaporoso, é úmido, escorre por entre os dedos e impregna na pele da alma. É brilhante e lança faíscas através do olhar. E são essas pequenas centelhas que grudam no papel e se convertem em palavras para que o cérebro possa tentar compreendê-las.


Nove de Outubro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Flamboyants e Sopa de Estrelinhas

Oi, gente. Essa é uma homenagem singelíssima ao grande Rubem Alves. Hoje, 15/09, ele está completando 78 anos. Espero que gostem. Kissus!



Flamboyants e Sopa de Estrelinhas



         Não sei bem o que escrever. Como fazer uma poesia para quem não se sente poeta (e o é com maestria), bem diferente de mim? Flamboyants, ajudem-me. Tenho aqui lápis e papel. O que me podem dizer sobre este filósofo?
         Os escritores deveriam ser sérios, assim como os psiquiatras. Mas talvez eu não seja escritora. Amo as letras simplesmente e gosto de brincar com elas, assim como o Rubem Alves com seus peões giratórios e sua sopa de estrelinhas.
         É verdade: tenho um fascínio por escritores mineiros. Não sei bem o porquê. Talvez seja por seu linguajar simples ou a alma infante que carregam e espalham. O Rubem Alves tem olhos poéticos diante da vida e isso transborda em suas letras e escorre pelo papel, caindo bem no centro de nossos olhos.
         Todavia, o que é a vida? O grande filósofo-poeta-psicanalista disse: “Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria.” Mas e esta alegria? Ela é oriunda de onde? Acredito piamente que nossa criança interior é a guardiã soberana de nossas reservas de contentamento. Que tal tirar fotos dos flamboyants numa manhã de sol, ou ainda brincar de peão ou tomar sopa de estrelinhas? Parece bobo um adulto fazendo essas coisas, mas existe coisa melhor que ignorar a rigidez da maturidade e rir de si ou consigo mesmo? Isso é ser criança e não precisa renegar seus cabelos brancos para manter sua chama viva.
         As crianças são sábias e quem conserva sua alma infante, conserva também o encanto pela vida, o prazer de viver. Não existe nada que me deixe mais deslumbrada com a vida do que contemplar uma nimbus (aquelas nuvens fofinhas que mais parecem pedaços de algodão) ou ver o chão repleto de flores de alguma cerejeira, de algum ipê roxo ou mesmo de um jambeiro, ou quem sabe observar os galhos retorcidos de um flamboyant.
         Certa feita, Rubem Alves lançou a proposta de que vivêssemos como se tivéssemos só mais um ano de vida. Embora algumas pessoas tenham achado mórbido, reconheçamos que muitas vezes precisamos de um prazo determinado para vivenciar algo em sua plenitude. Assim como só entregamos um trabalho mediante um prazo. “Quem acha que vai viver muito tempo fica deixando tudo para depois.”
         Entretanto...
         “As flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida. É preciso viver enquanto a chama do amor está queimando [...] As palavras que devem ser ditas, devem ser ditas agora. Os atos que devem ser feitos, devem ser feitos agora.

Nove de Setembro de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Gole de Lucidez


         A loucura tomou um gole de lucidez e embriagou-se de apatia. A realidade converteu-se em água fria e lançou-se sobre minha euforia. Não tiro sua razão. A minha que estava em desuso. Na verdade, achei-a por acaso dentro de uma conversa informal.
         Quando o amor veio foi com pressa e intensidade. Encontrou meu coração na vontade e cativou-me. Mais que isso. A loucura amordaçou a ingenuidade. Incitou a fome de liberdade. O medo foi quem puxou o freio de mão, apressado. Um coração descompassado. Alívio ao dobrar a esquina antes de um beco sem saída.
         A vida pôs o dedo no meu olho: “Não pode ser assim”. Não pode. Tudo bem. Não vou colocar o dedo na tomada. Eu não nadei até aqui para morrer afogada. A ilha está logo adiante. Que custa nadar mais um pouco?
         A sede é grande. O mar é abundante. Mas o sal é intragável. O desejo de mergulhar é mútuo. Sim, nós vamos. Marque na sua agenda. Só não estabeleça datas rígidas. Quero explorar a ilha junto com você. Antes, todavia, garanta-nos água potável e protetor solar. A aventura reserva seus encantos, mas também esconde suas obscuridades. O dia é claro. A noite, sorrateira, deixa ver apenas o reflexo do luar.
         Respire. Vamos desacelerar as braçadas. A exaustão pode deixar-nos à deriva. Nademos contra a maré. Sobrevivamos à afobação. Deixe que a pressa afunde sozinha. A plenitude resgatar-nos-á no final do horizonte.

Nove de Setembro de 2011

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Aflorada


         Quero o cheiro. O cheiro que não suguei, não gravei. Um cheiro que sei (inconscientemente) ser bom. Afinal, tenho saudade do que é bom.
         Os sentidos estavam aguçados. Todos. Ao mesmo tempo. Algumas sensações não chegaram inteiras. Quero puxá-las de novo, escancará-las. O que não está fixo, atar com um laço bem forte. Guardar na memória imperecível.
         Eu quero teu beijo. Quero a sede. Pois é ela que move todas as águas. Teu lábio puxando meu; massageando o desejo, a loucura. As línguas enroscando-se num frenesi fora de órbita. Ou era eu que estava em algum universo paralelo? Não importa a equação. O resultado já nos tomou.
         Quero sentir teu pulmão gritar. O ar que entra parece insuficiente. O que sai é demasiado. A respiração é quente. O vulcão me faz estremecer ao aproximar-se do meu ouvido. O vento frio dos altos píncaros cruza a fronteira entre o externo e o interno. O arrepio desnuda-me.
         Quero sentir teus dez braços enlaçando-me. Sentir nitidamente suas mãos percorrendo meus relevos, queimando ao cair em reentrâncias. Quero ouvir minha pele estremecer mudamente, sibilar.
         Quero o dengo. Aquela carência preenchida do teu abraço. O desencaixe perfeito de tuas mãos na minha. E o jeito que beija meu pescoço enquanto falo só para me desconcentrar. Onde parei mesmo? Não importa. Quero começar agora.