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quarta-feira, 7 de março de 2012

À porta


Saudade atroz esta que me bate.
Cale!
Não me calo!
E brado aos ventos surdos:
Estou saudosa de ti!

Tenho ciência de que comunga desta saudade
E anseia pelo mesmo encontro fortuito.
Não espere!
Nem esperemos!

Marque aquele encontro que nos desencontrou.
Tomemos a sede do copo transbordante.
Vem logo!
Já estou à porta a sonhar.

Seis de Março de 2012

domingo, 29 de janeiro de 2012

Quando o Frio Vem Aquecer

         A visita que não veio ligou. Um telefonema... Como direi? Aquele que a gente sempre deseja receber numa noite fria. Disse meia dúzia de palavras, ou talvez três quartos de dúzia, e comunicou: “Pedi para a saudade lhe fazer companhia enquanto não chego”. Certo. Olhei em derredor e contemplei o apartamento vazio de mim e tão sufocado de quinquilharias. A linha foi cortada de súbito. A saudade segurava o fio do telefone.
         Minha vontade era um chocolate quente, um riso depois de ter sido estabanada e um beijo para conter o riso. Sorrir com os olhos para ouvi-lo dizer: “Que olhinho lindo!”. Feliz eu fico. Encabulada também. Mas a felicidade, creio eu, seja maior que a timidez.
         A saudade veio se oferecendo para esquentar o chocolate. Como queira. Eu, para aquecer-me, fui ao quarto pegar um edredom e um livro. Aquele mesmo que você tirou de minhas mãos naquela outra noite sedenta de nós. Sorri, divertida e ouriçada com a lembrança.
         A chuva precipitou-se sobre o asfalto. Percebi pela névoa cinza que entrou úmida pela janela. Um vento frio veio aquecer-se, ousado, abraçando-me como você. O chocolate quente alcançou minhas mãos em seguida e eu beijei a caneca, ávida. Sorvia a ti naquele líquido meio-amargo.
         O telefone tocou. Você, do lado de lá, trovejava a vontade de me ver também. Do lado de cá, eu relampejava. A umidade do ar a tornar-nos mais sedentos a cada palavra gemida junto ao fone.
         Minha orelha ficou quente. E o namoro por telefone foi muito além de uma mera cartilagem aquecida. Ficamos um tempo sem tempo a contar naquele mundo paralelo, lugar só nosso; coautores que somos de carícias intrínsecas que não sabem onde começa o distante.

Vinte e Nove de Janeiro de 2012

sábado, 3 de dezembro de 2011

Monólogo de Uma Saudade


         Não sei que sentimento me toma hoje. Ou talvez saiba. Talvez seja uma saudade doída. Daquelas bem bravas que parece dilacerar o coração do homem. Pobre coração imaturo! Ensaia um sofrimento tão desproposital quando não estás aqui. Quando nem em pensamento estás sólido, presente. Minha mente tenta, mas a saudade torna-te tão pueril. Necessito-o em suor e emudecimento. Os pensamentos me escapam das mãos. Devaneios, como água, escorrem por entre meus dedos tortos. Se tudo isso é saudade, nunca senti uma saudade tão gostosa como o fel. Um clarão na noite de um terrível paradoxo. Que queres com esta tua ausência? Extrair uma chuva torrencial na secura de minhas palavras? Pois confesso-te que consegues. Nada consigo fazer além de escrever palavras secas e úmidas. Verbetes ousados que desmentem a felicidade fingida. Os mesmos verbetes os quais manipulo numa tentativa fracassada de persuadi-lo de que estou bem. Mas tende certeza: se estas palavras cristalizam minhas lágrimas em tua presença distante, com quanto mais loucura meu coração saltará aos lábios quando tua ausência tornar-se próxima.

Trinta de Novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Dispersão e Saudade


         O pensamento vem. Um não, vários. Inevitável. Quem sabe pudesse conter. Não deu. Ele já chegou. E acomodou as pernas no banquinho defronte ao sofá. Sinto um frio na barriga. Gostoso. Algo cristaliza. Converto-me em sorriso. Um olhar transbordante.
         Nada em especial aconteceu hoje. Depois de algumas horas, qualquer tempo é eternidade para a saudade. Uma vírgula é um texto inteiro. O sorriso vem mesmo assim. Memórias antigas, tão recentes, te trazem para o meu lado. E me distanciam de ti.
         A lua permanece encoberta. Nuvens atrevidas! Anseio o azul limpo. Desnudo. Algumas estrelinhas romperam a escuridão. Abriram um buraco no manto celeste. Eu posso ouvir burburinhos de mais estrelas vindos de dentro do breu. Astros maiores que não conseguem passar pela pequena fissura.
         É dia. A noite ainda não chegou. Espero que as nuvens se dissipem. Está abafado aqui dentro. As janelas estão abertas. O vento que rareou. Não quis mais assanhar meus cabelos. Vai cair uma chuva torrencial. De coisas boas, espero eu.
         O amor existe. Eu sei. Ou talvez suponha. Mas queria ouvir o mar.

Dezoito de Novembro de 2011

domingo, 12 de junho de 2011

Viva-voz

         “Alô?”
         Oi. Tudo bem? Eu liguei para conversar banalidades. Eu não quero dar meus créditos de bandeja para a minha operadora. Eu só queria desabafar com alguém, dizer que estou com saudades suas, qualquer coisa assim. Eu não tenho um pretexto decente para te ligar. Talvez esteja precisando falar sobre alguma falta ou excesso dentro de mim. Numa ideia mais paradoxal: algum excesso de falta. Demasiada escassez de amor, de otimismo, de equilíbrio. Quero um chocolate, de preferência o que fica ao redor da sua boca quando come o doce com as mãos. Quero um abraço, de preferência aquele seu de conchinha. Eu não posso dizer que te amo, mas talvez eu diga. Só pra ver sua reação. Quero saber que desculpa vai inventar para pular fora. E eu? Que argumento usarei para desmentir o já dito para que continuemos amigos? Acho melhor eu desligar. Já falei demais coisas que não ia dizer. Talvez um dia eu te ligue de novo. Talvez decore seu número e queira ligar para compartilhar minhas ideias desconexas. Foi bom ouvir a sua voz. Até mais.
         [Chamada encerrada].