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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Reconhecendo o caminho


Há pouco mais de um mês, vinha eu no ônibus, recostada à janela e preocupadíssima com o trabalho de Morfologia. Então, do banco de trás, uma senhora interpelou-me:

- Minha filha, você, que é médica...

“Médica? – pensei. – Eu não sou médica.” Nesse momento, meneei a cabeça ligeiramente para o lado e esse meu gesto foi interpretado como uma negativa pela senhora, que reformulou sua fala:

- Você, que é professora, me explica uma coisa. – Parei e ouvi. Já estava quase na minha hora de descer do ônibus, mas, como fui reconhecida como professora, senti-me com o dever moral e humano de acolher sua dúvida. E ela veio: – Eu vi ali: “Crie seu caminho”. O que isso significa?

Parei, surpreendida. “Crie seu caminho” – repeti para mim mesma. Um enunciado tão claro para mim; tão óbvio. Para mim. Contudo, a senhora percebia-o obscuro.  Então, como tornar claro para ela também?  O que é criar o próprio caminho? Matutei isso por alguns segundos, antes de responder:

- Significa criar a sua existência; fazer da sua vida o que a senhora gostaria que ela fosse.

- É isso? – surpreendeu-se.

- Sim. Acho que é isso – confirmei, sem saber como aprofundar minha resposta.

A senhora agradeceu e eu, antes de descer do ônibus cheia de mafuá, olhei-a e sorri. Embora ela tenha me chamado de professora, não sinto que respondi como professora. Antes, respondi como alguém, que está ainda descobrindo como criar seu próprio caminho. Respondi, portanto, do lugar de humana.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vitral

Desenho meu feito com lápis de cor aquarelável
Não estou me encontrando,
Estou me buscando,
Reinventando.

O vitral estou desmontando,
Os cacos coloridos separando,
Os fragmentos de mim peneirando.

Os pedaços excluídos isolando,
O restante reorganizando.
Os novos escolhidos procurando,
Para nas lacunas ir colocando.

O novo eu está se formando,
O vitral se concretizando.
Minha vida? Melhorando.
E a felicidade vem despontando.

terça-feira, 26 de julho de 2011

No Meio do Caminho Tem um Dente-de-leão

Este texto fiz há quase quinze dias atrás. Todavia, só poderia publicá-lo junto com a imagem da tela que o inspirou. Espero que gostem! Kissus

tela acrílica s/tela feita por mim

         Existe algo dentro de mim querendo libertar-se. Não sei o que é, mas tenho a nítida sensação de que quer se espalhar por aí, assim como um dente-de-leão quando assoprado.
         É do centro do meu âmago – um lugar quente e misterioso – que esta coisa brota. Poderia chamá-la de amor? Não, não vou mencionar um nome que talvez não lhe pertença. Eu só sei que esta coisa inominável já rompeu a fina membrana que separa o interior do exterior.
         Esta coisa, na verdade, parece estar entre duas coisas distintas. De um lado está o calor, o fogo que pode destruir ou fazer renascer, o caos ou a esperança. Do outro está o frio, a serenidade, a passividade, o escuro, o medo. O dente-de-leão está entre os dois pólos como que procurando o seu lugar, o equilíbrio de um encaixe, de uma fusão entre o azul e o amarelo para que os dois extremos dêem as mãos e estas se entrelacem.
         Talvez esta coisa inominável seja enfim uma busca. A busca pela peça que vai completar o quebra-cabeça. Talvez seja – quem sabe – a vontade de distribuir sentimentos/sorrisos/olhares pelo mundo até encontrar alguém que os esteja buscando.
         Fico a me perguntar quando o dente-de-leão, que ainda não sei se representa a mim ou a coisa, encontrará o que procura. E continuo aqui aguardando uma resposta.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

As Respostas



Tentei encontrá-las nos outros lugares. Busquei nos livros, nas pessoas, nas placas de cada esquina da minha vida, mas não obtive sucesso. Disseram-me então que estavam dentro de mim. Porém (maldito porém!), estavam dentro de um emaranhado ao qual eu não tinha acesso.
Imaginem dezenas, centenas de fios que se entrelaçam numa confusão sem fim. É no meio desse labirinto que as minhas respostas estão. E eu poderia vir simplesmente com uma tesoura e cortar todos eles. Poderia, não posso. Cada fio representa um pensamento ou um sentimento que eu não posso exterminar de maneira tão abrupta.
Sim? Não? Talvez? Quem sabe. Seguir em frente ou voltar pelo caminho já percorrido?
Parece que estou cercada por uma densa neblina e não consigo ver o que tem escrito nas portas ao meu redor. Então ajoelho no chão e dou de cara com um amontoado de fios. Procuro desesperada pela ponta para desfazer toda esta confusão. Cadê? O volume é pesado, mas não encontro o fim nem o começo de nenhum dos fios.
Acho que o único jeito será trazer o ventilador. Assim a neblina dissipará e eu terei mais sucesso na busca pela ponta do fio. E poderei, enfim, ver em qual porta está a plaquinha com o nome "Felicidade".