Minha cabeça está cheia. O caos dos primórdios se instalou em minha massa encefálica. Quantos titãs brigam por espaço dentro de mim? Quantos dilúvios escorrem pelos meus olhos? Nikola Tesla está testando a potência das minhas sinapses. Einstein afirma que o maior mistério do meu cérebro é a sua total compreensibilidade. Enquanto Moisés tenta abrir o Mar Vermelho, Ulisses tenta voltar para Ítaca. São tantas sereias cantando ao mesmo tempo, que quero matar todas. Vou passar cera em seus lábios, para que nunca mais cantem. INFERNO! Onde está Dante? Onde está esse maldito castelo que nunca chega? Que sonho dentro de sonho, dentro de sonho, dentro de sonho é esse? Se ao menos acordasse metamorfoseada num inseto. Se pudesse encontrar o meu eu do futuro num banco de praça. Meu anjo da guarda sumiu. Estará salvando uma irmã minha na Índia? Minha mente é o pior dos mundos possíveis e impossíveis. Que labirinto bórgio-sulfúrico é esse? Estou tentando dormir e não consigo. Sintagmas incognoscíveis sobrevoam minha carniça. Eu não tenho nada. Eu não sou nada. Precisarei morrer para ter uma boa noite de sono? Ao menos até o dia do Juízo Final. Quando eu defender o meu TCC, talvez eu tenha uma amostra grátis do Paraíso. Eu, tão Ródia, tremendo feito vara verde. Tudo culpa do superego. Quando teremos notícias frescas neste disco? Você não sabe amar, meu bem. Eu sou poeta e não aprendi a amar. Ninguém está nem aí para o formidável enterro de minha última quimera. Só existe passado em minha mente. Este desespero era moda em 1973. Quantos escritores já se suicidaram? Eu oscilo entre Almodóvar e Woody Allen. Eu vejo o muro ruindo, ruindo, ruindo. Usem minha cabeça para segurá-lo. Cortem-me os pés. Estes malditos sapatinhos vermelhos não param de dançar. Tudo culpa daquele milica aposentado que batucou neles com os dedos. Jacobina está cego de tanto olhar-se no espelho. INFERNO! Essas sereias não ficam afônicas nunca? Onde está o firmamento seguro do herói clássico? O Paraíso é só um asilo para idosos. E a velha se jogou do 5º andar, para encontrar o marido no inferno. Preciso de férias de mim mesma. Preciso ir para algum lugar onde eu não tenha passado. Mandem todos para o quinto dos infernos! Eu não aguento mais tantas obras inacabadas. Vou queimar todas. A começar dessas cigarras infernais na minha cabeça. Nenhuma sintaxe é boa o suficiente para mim. E Kafka achava que morreria antes de produzir algo válido. E Nando achava que ia montar uma prelazia no Xingu. E eu achava que poderia viver tranquila no centro da minha mente. Minha mente é o pior dos mundos possíveis e imagináveis. E o mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito.
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sábado, 23 de março de 2019
sábado, 27 de julho de 2013
O Castigo de Damião
Este texto estabelece uma intertextualidade com o conto O Caso da Vara, de Machado de Assis. Escrevi-o, pois sempre senti falta de um 'final' para Damião no texto machadiano.
Damião encarava o teto. Seus pensamentos
atravessavam-no como um cortejo de almas. A culpa verminosa corroia-o. Ele, que
chegara à casa de sinhá Rita num clamor por liberdade, permitiu-se ser
conivente com o castigo da negrinha Lucrécia. Pobre menina! Pobre dele, que
antevia seu castigo também próximo. Levaria uma sova do pai, certamente. Súbito
ocorreu-
-lhe ser atropelado por um carro
de passeio e assim ser poupado de tudo: da sova, da ladainha paterna, do
deporto para o seminário...
Um trote surdo adentrou a janela, arrancando
Damião de seus devaneios. Deu um pulo e precipitou-se sobre a janela,
esbaforido. O padrinho e sinhá Rita murmuravam frente à porta sem desviar o
olhar um d’outro. “Terá trazido ele alguma notícia de meu pai?” – pensou
Damião, que tencionava descer para falar-lhes quando ouviu: “Deixe-o descansar
esta noite”. Sinhá Rita disse isso na mais das calmas e o padrinho assentiu com
um gesto de cabeça. O que teria ele lhe dito? Abruptamente os dois entraram no
coche e imergiram no breu.
- O que padrinho terá dito a sinhá Rita?
Será meu pai que há de vir me buscar? Virá amanhã cedo talvez? – Pensou um
pouco. – O que fazer? Fugir?... A noite é longa para os que esperam e curta
para os fugitivos. Oh, Deus!... Não! Não mereço clemência. Não fui clemente com
a negrinha Lucrécia. – Suspiro. – Sei que vós sois a Bondade, mas não sou
digno. Nem sei por que estou no seminário se sou tão mesquinho e conivente com
injustiças. Exceto as que me afetam... Que tipo de pároco eu seria se me
ordenasse? Livra-me desta missão. Minha alma não é nobre o suficiente.
Damião regressou à cama e adormeceu
pesadamente. Entre sonhos conturbados e desconexos, o pai surgiu-lhe. Acordou
cansado, o peito oprimido, com alguém a bater na porta do quarto.
- Só um minuto – pediu ainda acordando.
Vestiu-se rapidamente e correu à porta. Sinhá Rita tinha os músculos da face
tensionados, embora se esforçasse por sorrir.
Lá embaixo o padrinho esperava-os no sofá
enquanto as negrinhas, entre elas Lucrécia, estavam pegadas com suas almofadas
a fazer renda.
- Damião! – precipitou-se ele sobre o
rapaz.
- Meu pai está vindo? Ele está vindo? –
Damião suava frio. – Por que estão a olhar-me assim?
- Sente-se – pediu o padrinho com
gravidade na voz. – Ontem à noite, seus pais voltavam da ópera quando, numa
curva, o coche... – Nesse instante, o padrinho procurou força nos olhos de sinhá
Rita. Pigarreou. – O coche virou e eles foram arremessados de um barranco.
Eles... morreram com o impacto da queda.
Damião abriu a boca, mas não saiu
qualquer som. Levou um tempo recapitulando os últimos dias desde que fugira do
seminário, em especial a noite anterior.
- Não! Eu não queria que tivesse sido
assim! Você atendeu meu pedido do jeito errado!
- Damião, o que diz? A qual pedido se
refere?
- Não! Assim não! – E saiu correndo porta
afora como um cego. Deus teria atendido seu pedido? Atravessou o pátio;
alcançou a rua; mas não chegou ao outro lado.
Alvoroço. Transeuntes amontoaram-se no
meio da rua. As pessoas nos carros de passeio desciam para ver o tumulto. Um
guarda aproximou-se para dispersar a multidão.
- Ele morreu – disse secamente ao
verificar o pulso de Damião.
- Um rapaz tão bonito – comentou uma
mocinha, entrelaçando as mãos.
- Morreu de quê? – quis saber uma
senhora.
De culpa.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Lucidez Oteliana
Ela estava na banheira quando o marido
chegou. No chuveiro, um rapaz se banhava, exibindo-se para a jovem senhora. E
ela também lhe lançava olhares furtivos e famintos, sendo correspondida por
ele.
O marido atravessou a sala com seus
sapatos grosseiros e o olhar fulminando o que lhe atravessasse o caminho. Logo
ouviu o barulho do chuveiro e dirigiu-se ao banheiro. Antes, porém, deteve-se
na cozinha, atraído por um frango assado. A mulher cozinhava bem afinal das
contas. Mas aquele frango tão dourado, numa noite qualquer, era de se
desconfiar. O homem então se lembrou do que despertara chispas em seus olhos e
foi ao banheiro, onde a água do chuveiro continuava a correr.
A mulher, entretida com as espumas e o
rapazote, não ouviu em nenhum momento os passos vociferantes do marido.
A porta se abriu devagar.
— Desdemona? – disse o marido num tom
quase carinhoso.
— Des-demona? – ela gaguejou, trêmula e
suando frio. – Quem é essa?
O rapazote já pegava a toalha tencionando
sair à francesa, mas foi impedido pelo marido. Num tom irônico, o homem
voltou-se para a esposa:
— Ora, querida, não decepcione
Shakespeare.
Não era possível dizer quem estivesse
mais apreensivo: a mulher ou o rapazote. Minto, o pavor da mulher era visível
até mesmo para um cego.
O marido aproximou-se da banheira e pediu
com uma gentileza atípica:
— Querida, saia da banheira.
— O que você vai fazer? – Os olhos dela
por pouco não saltavam para fora; temia a reação do esposo. Ainda mais quando
ficou sozinha com ele. O amante aproveitou uma distração deste e saiu porta
afora, nu mesmo. “Covarde” – pensou a mulher.
Ela se voltou para o marido, que insistia
para que saísse da banheira. Sem argumentos fortes para lhe proteger, obedeceu.
O homem aproximou-se, puxou a adaga do
bolso, acariciou-lhe o pescoço com a lâmina.
— Sua pele tão alva...
A mulher arfava, todo o ar do mundo
insuficiente era para acalmá-la.
— Este seu colar... foi
presente meu – disse, passando a adaga por dentro da joia.
— Você está LOUCO! – cuspiu num rompante.
O marido encarou-a. Seus olhos gélidos
lançavam raios, os mesmos raios com que Zeus fulminava os mortais.
— Você está completamente louco!
— Não. Estou tão lúcido quanto Otelo. – E
puxou a faca contra o colar, as pérolas lançando-se no chão.
No silêncio sepulcral onde apenas se
ouvia a respiração da mulher, aquele barulho a tensionava tanto ou mais que o
metal frio em seu pescoço.
— Vá... Desdemona. Antes que eu a mate.
Expurgue sua culpa nos braços do seu amante.
Ele empurrou a ponta da adaga contra a
garganta dela, que apertou os olhos para não ver o próprio sangue. Mas não a
perfurou. E, tão logo recolheu a faca, ela saiu desabalada, obedecendo ao
marido como sempre.
Texto publicado no Correio das Artes, de 07 de julho de 2013.
Texto publicado no Correio das Artes, de 07 de julho de 2013.
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