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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Semente


foto Ronai Rocha

A floresta me suga.
Eu murcho sem sumo.
Não me deixe criar raízes aqui, por favor.
Eu quero ser pássaro, quero ser água.
Veja as cordilheiras, os vales, os jardins!
Acorde desta floresta escura.
As árvores são lindas
Mas as folhas secas quebrando me angustiam.
Quero simplesmente fluir.
Encontrar novos céus, novas nascentes.
Ser flor.
Quebrai, pois, tua casca dura!
A semente ouviu.
Remexeu-se nos braços da Mãe-terra.

sábado, 12 de novembro de 2011

Embriaguez Lúcida


         Ela tinha os globos oculares voltados para mim. Porém, seu olhar estava distante. Fitava algo dentro do nada. Mas o que lhe vinha à mente parecia estar muito perto. Tanto que tive a nítida sensação de ver seu corpo estremecer. Como se ela estivesse sendo tocada pelas memórias recentes.
         Curiosa, perguntei o motivo. Ela falou, sorrindo. A ficha parecia não ter caído ainda. Só a mudança física lhe dava certeza do ocorrido. Contudo, a certeza parecia não ter chegado ao cérebro. Ou até tivesse chegado. Mas ela não estava lá para recebê-la.
         Conhecia-a desde outrora. Muito antes dela. Pensávamos que ficaria inebriada quando tal coisa acontecesse. Culpa das ideias oniricamente distorcidas que ela alimentava sobre essas coisas. Pensava eu que ela ficaria num estado semelhante ao da embriaguez. Dispersa, entretanto, era impossível que não ficasse. Afinal, esse era seu estado natural.
         “Se tudo tivesse acontecido um ano antes, talvez tivesse me perdido do centro” – confessou-me. Lembrava-me bem que sempre via essas coisas como se fosse uma orquídea no cume da montanha mais alta, e agora a mesma orquídea estava no pé da mesma. O (quase) inalcançável tornou-se mais próximo e natural. Eu me sentia satisfeita e orgulhosa por seus pensamentos terem amadurecido dessa forma.
         Um sorriso brotou-lhe nos lábios e também nos olhos. Estava feliz. Muito feliz por ter acontecido. “Não foi cheio disso ou daquilo, todas aquelas frescuras...” – comentou. As “frescuras” até que são românticas, mas ela descobriu que não passavam de dispensáveis. Mas teve o que ela sempre quis: carinho. Muito carinho. “E isso é primordial. Era a única coisa que eu não abria mão” – completou. E sorriu mais uma vez para as lembranças.

domingo, 6 de novembro de 2011

Floresta da Alma (Parte 1)


         A jovem andava pela praça principal de um pequeno vilarejo sob um capuz. Costurava as pessoas, imperceptível. Aproximou-se de uma banca de frutas e ofereceu algumas míseras moedas, indicando as maçãs rubras. “Só pode levar uma. E dê-se por satisfeita!” – disse o vendedor, ríspido. Ela pegou a maçã que este lhe oferecia, agradeceu e se foi. Comeu-a, satisfeita, como se fora um néctar dos deuses. Aquela certamente seria a sua única refeição do dia e poderia ser a única de muitos dias seguidos.
         Ela morava num mísero casebre na floresta e sobrevivia das peças que fazia em argila. Cada peça demorava dias para ficar pronta e nem sempre eram vendidas de imediato. Por isso, as moedas demoravam a aparecer. Além do fato de que nem sempre ela conseguia trabalhar de estômago vazio.
         Naquela noite, plena, a jovem ficou até tarde trabalhando. Foi dormir apenas quando não conseguia mais manter os olhos abertos. Exausta, esqueceu de apagar a vela. Acordou sufocada com a fumaça que tomava todo o casebre. Saiu correndo e assistiu impotente a vida, que até então conhecia, transformar-se em pó.
         Ela não tinha para onde ir. Não tinha parentes. Nem amigos. Estava só na floresta.
         Amanheceu.
         A jovem adentrou a mata sem consciência de seu destino. Talvez se perder de si mesma. Ou não. Caminhou até cair de sede. Avistou de longe uma matilha refrescando-se num rio, ao qual se dirigiu afoita. Bebeu daquela água, sem cogitar a possibilidade de um ataque dos lobos. Depois afastou-se.
         Sentia-se perdida. Havia deixado de ser o que era. E ainda não sabia em quê se transformara ou transformaria.
         Ao longo do dia, ela foi recolhendo galhos do chão. Precisaria deles para fazer uma fogueira à noite. Em sua busca, também teve a sorte de encontrar algumas frutas pelo caminho.
         O crepúsculo veio e, logo em seguida, a noite. A jovem fez a fogueira, mas não conseguiu dormir. Tinha muito medo que o fogo apagasse durante a madrugada ou que algum animal aparecesse.
         Pela manhã, a jovem comeu uma fruta e mais uma vez saiu em busca de gravetos. À noite, ficou em claro pastorando o fogo para que não se extinguisse antes da aurora.
         Alguns dias se passaram e a jovem ainda não dormiu. Permanece alerta para defender e alimentar aquilo em que ela está se transformando.

Seis de Novembro de 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

A Menininha e o Fantasma

Esta é uma historieta bem simples, como as que contamos para as crianças. Mas esta história não é só as palavras externas. Permita-se mergulhar nas entrelinhas para ver o fundo do lago. Espero que gostem. Beijos!


         Era uma vez uma menininha. Toda noite quando ela desligava o abajur para dormir um fantasma vinha perturbá-la. A menininha, sentindo-se impotente, chorava até dormir por não ter coragem de enfrentar o fantasma. Durante o dia, acordada, a menininha pedia forças para confrontá-lo.
         Assim ela cresceu: à noite deixava-se abater pela presença do fantasma e de dia pedia forças para resistir às suas palavras.
         Uma noite, o fantasma veio visitá-la como de costume. Desta vez, entretanto, a menininha sentiu-se tomada por uma grande força e pediu:
         - Segura minha mão?
         - Eu nem soltei, menina – disse a Força.
         A menininha então voltou-se para o fantasma:
         - Vá embora!
         - Por que eu iria? Você continua sendo boba e ingênua.
         - Não! Eu cresci. Vá embora! Não preciso de você.
         A segurança da menininha transformou-se em luz e não se viu mais o fantasma.
         - Obrigada! – Ela abraçou a Força.
         - Estarei sempre aqui. É só me chamar.
         A menininha sorriu e nunca mais deu ouvidos ao fantasma.


Vinte de Outubro de 2011

domingo, 17 de julho de 2011

Permitir-se


Permito-me abrir meu coração para o amor.
Permito-me não me controlar tanto.
Permito-me sorrir mais e dar pulos de alegria quando sentir vontade.
Permito-me mostrar meu olhar sem medo.
Permito-me mudar.
Permito-me ser moleca às vezes.
Permito-me acordar feliz por mais um dia.
Permito-me livrar meu ser da carência e do apego.
Permito-me desmistificar o príncipe encantado.
Permito-me mudar.
Permito-me dizer não.
Permito-me tirar meus sonhos do diário.
Permito-me perder o medo de fracassar.
Permito-me deixar de lado a timidez.
Permito-me mudar.
Permito-me mostrar minha alma.
Permito-me abandonar velhas inseguranças.
Permito-me rever meus conceitos de comportamento.
Permito-me abrir mão de pensamentos derrotistas.
Permito-me mudar.
E, mudando, permito-me deixar o eu antigo para trás.

domingo, 5 de junho de 2011

Amor Humano (Imperfeito)


         A época de suspirar pelo príncipe encantado escorrera há muito por entre os dedos do tempo. Agora se faz urgente mudar o pensar e focar os anseios na busca por um amor humano (lê-se imperfeito) e possível de ser encontrado n’alguma esquina ou, quiçá, na fila do banco, no caixa do supermercado ou no ponto de ônibus.
         A idade começa por mostrar seu peso e o último desejo que posso acalentar é o de perpetuar minha solidão. Então me percebo com uma difícil missão: abrir mão de algumas exigências quanto ao meu par. Afinal, é deveras estafante retirar estes vícios e (in)virtudes incrustados em meu íntimo.
         Características físicas e materiais deixaram de me preocupar há um tempo que nem me atrevo a contabilizar. O que busco – o clamor do meu âmago – é uma alma. Não quero que ela me seja gêmea. Já basta uma de mim em minha vida. Quero alguém diverso, mas que tenhamos algumas afinidades para termos o que compartilhar quando nossas bocas ansiarem por um descanso. Quero que o amor tenha alguns defeitos e qualidades que me faltam para que haja um equilíbrio; para que assim nos completemos.
         Uma pessoa perfeita (sinto dizer que esta não existe) é monotonamente previsível. E a graça da vida é sua constante mutação (para melhor, claro).
         Quero salientar, todavia, que meu coração não está aberto para qualquer um. Mas estou disposta a abrir mão de algumas exigências se for um cavalheiro que valha a pena. Contudo, de duas eu faço questão: amor sincero e disposição para crescer junto comigo.
         Posso ser flexível, mas não serei irresponsável, tampouco masoquista, de entregar meu coração para algum exterminador de sonhos. 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Catavento de Mudanças


"Os ventos da mudança estão soprando. Que fique e pouse em minha alma apenas as coisas boas." (Sara Regina Carvalho)

Meu peito está aberto. Abri-o recentemente para receber as mudanças. Apresentaram-me e prometeram transformações para melhor. 
Meu coração está sereno e confiante. Já consigo ver uns brotinhos de um verde brilhante onde antes era um terreno seco.
Pediram-me para regar estes brotinhos. Afinal, eu tinha que fazer alguma coisa! Nada cai de graça do céu. E eu tenho que fazer a minha parte.
Já estou começando a perceber um princípio de mudança e desejo e trabalharei para que os brotinhos cresçam e ganhem raízes fortes, solidificando as mudanças em minha vida.
Portanto, quero dizer... Estou pronta!
Que venha uma nova vida! Que venha a felicidade!