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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Prostituta

 


Eu era sua prostituta. A prostituta mais infame de todas, porque eu nunca recebi um real por lhe dar prazer. Eu sequer tenho o direito de dizer que eu era uma prostituta, sob o risco de ofender à categoria. Entretanto, era exatamente assim que eu me sentia.


Meu corpo estava à sua disposição. Você podia usufruir dele a qualquer hora do dia ou da noite. Você podia, se assim quisesse, furtar-me do sono dos anjos e arrastar-me para a sua cama, ao soar as doze badaladas da meia-noite. Você sequer se importava se eu sentia prazer com o que fazíamos. Bastava que você gozasse e estava tudo certo. Você podia me beijar, me morder, me chupar; enfiar o seu pau onde bem entendesse em mim. Meu corpo estava à sua disposição mesmo.


A verdade verdadeira (e indesejável) é que só as suas necessidades fisiológicas importavam. Quantas vezes eu não te liguei, para falar da minha saudade e do meu tesão, mas só nos encontrávamos quando você estava faminto? É, só a sua fome importava mesmo. Eu que desse um jeito ― qualquer que fosse ― de me manter úmida enquanto você não me procurasse.


 Eu era uma prostituta mesmo. E eu sequer sabia rosnar; sequer sabia dizer que não estava bom para mim, que me machucava. Na verdade, eu era muito pior do que uma prostituta: eu estava cega e surda de paixão e tentava convencer a mim mesma de que as migalhas que você me dava eram o bastante para alimentar-me.


Eu devia ter rosnado; ter gritado; ter te arranhado, se fosse o caso! Mas eu não deveria ter aceitado servi-lo com tamanha devoção. Sim, eu o servia. Eu era uma lobinha inexperiente e ingênua e não vi que nosso relacionamento estava muito longe de ser uma parceria. Eu era sua prostituta e só. Eu o amei? Amei. E, exatamente por isso, fui mais prostituta do que uma prostituta de fato. Porém, só agora abri os olhos para minha leseira.


Só desejo uma coisa: que meus olhos permaneçam abertos, quando o próximo amor chegar.


domingo, 4 de março de 2018

Foda-se


Foda-se, se você acha que minhas lágrimas são infundadas. Eu vou chorar onde e quando quiser; sempre que sentir necessidade.
Foda-se, se você não gosta que eu fale ou do que eu falo. Eu falo do que gosto e do que me transborda. Eu sou tagarela, sim!
Foda-se, se você me acha antissocial. Eu só busco pessoas que me fazem bem.
Foda-se, se você não gosta do meu corpo volumoso. A voluptuosidade é minha e é deliciosa!
Foda-se, se você acha que eu deveria ser uma boa menina. Eu não sou domesticável. Eu sou uma anti-heroína.
Foda-se, se você me acha lenta em minhas produções. Eu me deito e me deleito com cada traço, cada letra. Eu me desobrigo a seguir um ritmo de produção fabril.
Foda-se, se você acha que eu deveria seguir o padrão midiático de beleza.  Eu não preciso seguir ninguém. Eu me faço em meu caminho.
Foda-se, se você acha que eu deveria ser forte e sorrir o tempo inteiro. Eu sou humana. Eu preciso de colo também.
Foda-se, se você acha que eu lhe devo dedicação exclusiva. Eu tenho outras pessoas, compromissos e projetos para dar atenção também.
Foda-se, se você não gosta do meu cabelo curto. Minha feminilidade não está nos cabelos. Está no meu eu mais profundo.
Foda-se, se você acha que eu deveria ter um namorado. Não quero ter um relacionamento só para dizer que tenho. Quero um relacionamento de verdade.
Foda-se, se você acha que eu deveria andar como uma boneca. Prefiro o rosto livre de máscaras e os pés nus.
Foda-se, enfim, se você acha que eu deveria ser como você gostaria que eu fosse. Eu não me permito mais ser quem eu não sou.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Manda teu coração à merda


            Pega teu coração e levanta-te. Ninguém quer saber como tu andas, apenas que andes. Levanta-te! Que importa se precisas costurar ou ninar teu coração? Ninguém está interessado em tuas necessidades. Tua fragilidade? Pouco importa.  Pega teu coração e levanta-te. Caminha. Não importa se te desmanchas em lágrimas e sangue. Caminha. Mesmo que pedaços do teu coração jazam pelo caminho. O mundo não para, para que possas remendar-te. Caminha. Nem mesmo teu objeto de afeição se importa se estás agonizante. Caminha. Mesmo que teu coração vaze e se esforce para continuar vivo. Caminha. Obriga-te a sorrir. O mundo não é obrigado a suportar tua dor. Caminha. Teu coração não demora a extinguir-se de todo. Caminha. Mesmo que teus sonhos idiotas persistam. Caminha. Mesmo que teus pés já tenham atrofiado. Caminha. E, quando não mais puderes caminhar, arrasta-te, como um verme. Sê menos que um verme, pois até o verme é mais feliz que tu. Vamos! Manda teu coração à merda! Um dia aprenderás a amar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ode ao Amor que Nunca Hei de Amar

Já o amo, mas o amar sucumbirá sem ser amado.
O objeto de afeição, tão puído, esfarelará.
O tinteiro para qualquer ode nunca usado.

As palavras apenas imaginadas
Sumirão do papel que jamais tirei da gaveta.
A árvore, sua mãe, a gestá-lo não chegou.

A ideia nasceu destinada a perecer
Tão logo atingisse a consciência.
Se me ponho a escrever,
Esvai-se a sapiência.

A semente estrangulada é.
A ode que deveria advir destas linhas
Morre sem ser proclamada.
A arte é mesquinha.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Semente


foto Ronai Rocha

A floresta me suga.
Eu murcho sem sumo.
Não me deixe criar raízes aqui, por favor.
Eu quero ser pássaro, quero ser água.
Veja as cordilheiras, os vales, os jardins!
Acorde desta floresta escura.
As árvores são lindas
Mas as folhas secas quebrando me angustiam.
Quero simplesmente fluir.
Encontrar novos céus, novas nascentes.
Ser flor.
Quebrai, pois, tua casca dura!
A semente ouviu.
Remexeu-se nos braços da Mãe-terra.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Luzinhas


Os cristais ainda parecem estar dentro dos meus olhos.
Pedras preciosas que brilham quando o sol bate na água.
O sol surge por trás das nuvens.
Mas em algumas partes ainda é noite.
Algumas criaturas ainda estão dormindo.
E sua força permanece em estado latente.
Outros seres, aparentemente mais frágeis,
Tentam espalhar pequenas luzinhas pelo caminho
Na tentativa de chamar o sol.
Sol que seria capaz de despertar
As criaturas mais fortes.
Criaturas estas que protegem a floresta.
O céu ainda está azul cobalto e a lua visível.
Vamos... continuar pendurando as luzinhas por entre os galhos.
Até amanhecer na floresta inteira.

Quatorze de Novembro de 2011

sábado, 29 de outubro de 2011

Palavras (Não) Vãs


         Confiança. O fio rompeu-se. Onde exatamente não sei. Na infância, creio eu. É lá que vislumbro o início do comportamento egoísta e amedrontado. Passei a esconder minhas coisas de ti. Até as mais irrelevantes. O diálogo tornou-se praticamente nulo. E isso me dói muito. Sempre doeu.
         As palavras não são vãs. Eu queria mudar isso. Reverter esta situação de uma vez por todas. Sei lá como. Só sei que não aguento mais este tormento.
         Você é a pessoa que eu mais deveria confiar neste mundo. O dever, entretanto, nem sempre consegue ser cumprido. Como neste caso. Eu tenho muito medo de ser criticada, cobrada. Pior: eu tenho medo que me prenda de novo naquela redoma imaginária mais asfixiante do que qualquer calabouço.
         Por quê? Por que eu tenho esse medo dilacerante? As lágrimas vêm doídas e salgadas nesse instante. E sempre que penso nisso. Mas não consigo transpor esta barreira. Um medo de origem desconhecida me impede de tê-la como companheira e cúmplice.
         Eu não quero deixar esta vida sem tê-la como minha confidente. E eu ainda tenho esperança de que um dia sejamos as amigas que sempre sonhei que fôssemos. Mesmo este bloqueio sendo maior e mais forte do que eu ainda hoje quando escrevo estas linhas.
         Tenho muitas coisas para te contar, coisas que já aconteceram e as que ainda vão acontecer; todos os textos que escrevi e aqueles que o Universo ainda me reserva quero te mostrar.

Vinte e Nove de Outubro de 2011

domingo, 3 de julho de 2011

Breu Completo


         Amanheceu em minha alma. Porém, ainda continua escuro. Acordei exaurida. O novo não despertou em mim nenhuma esperança. Como o vento me trouxe em alguma feita: “Acredito no amor, mas não que ele seja pra mim”.
         Amanhece, anoitece, mas não faz diferença nenhuma. Continua escuro e desesperançoso. À noite, todos os gatos são pardos, mas eu sou invisível mesmo ao sol do meio-dia.
         Pensei que só os heróis fantásticos tivessem o dom da invisibilidade. Mas eu sou translúcida, vagueio por entre as pessoas que me atravessam indiferentes e não tenho super poder nenhum. Nem ao menos o de reverter a invisibilidade. Isso não é um dom, é uma condição imposta. Imposta por quem? Pelo destino? Pelo carma? Pelo capricho dos deuses?
         Eu ainda quero acreditar. Mas a minha esperança é tão ínfima, microscópica. Não acredito em milagres, mas só um para me fazer crer que o amor seja pra mim também.
         Meu corpo tem vinte e poucos anos, mas meu espírito deve ter uns mil, para estar tão exaurido e descrente. Eu não o culpo. Parece mesmo que o amor nos excluiu de suas responsabilidades.
         Um dia, logo no começo de minha vida de escritora, escrevi-lhe uma carta perguntando por que ele havia sumido. Ele até respondeu a carta, mas nunca veio. Só deu algumas passadas rápidas para dar-me uma alegria ínfima e depois deixar uma dor dilacerante no meu peito. Mas não vou escrever outra carta pra ele, é perda de tempo.
         Vou ficar aqui com minha velha conhecida: a desesperança. Às vezes ela fica feliz com uma lata de brigadeiro e me dá uma trégua de algumas horas, até de alguns dias, quando está de bom humor.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Mal Crônico


         Meu coração sofre de um mal crônico. Uma tristeza que volta e meia ressurge de minhas entranhas. Um sentimento de vazio imune a multidões. Tanto faz se passo pelo epicentro do tumulto ou se me esgueirando pelas sombras, se saio empacotada ou despida, ninguém o vê.
         Será que o meu coração é fruto de minha mente solitária assim como os romances que fantasio? Será que existe uma máquina em seu lugar que faz o mesmo barulho que o músculo? Eu o sinto doer, comprimido no peito, e, em raras ocasiões, acometido por uma alegria ínfima. Então por que as pessoas não se apercebem de sua existência?
         Às vezes queria ser mais medíocre, mais defeituosa. Minhas qualidades nunca tiveram utilidade nenhuma. Só fazem com que as pessoas tenham que enumerá-las antes de pisar em mim e me jogar para o lado.
         Queria que as pessoas ao menos vissem meu coração antes de ignorá-lo. Acho que vou fazer um corte no peito e andar na rua com o músculo sangrando à mostra. Assim todos verão que eu tenho um coração.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bambu Verde

         Imagine um bambu verde. Ele se curva para frente e para trás ao sabor do vento, mas não se quebra. Flexível, cede quando é preciso. A amizade verdadeira é assim. O vento seria as verdades que lançamos sobre nossos amigos e nós o bambu.
         Cada pessoa esconde algo do mundo (ou grande parte dele), seja por vergonha ou medo. Eu tenho uma coisa que guardo para mim. Garanto que você também. Mas se a amizade for verdadeira, a revelação do segredo só a fortalecerá.
         Eu confio muito nas pessoas. Algumas logo de cara. Porém, tem uma coisa – uma só – que eu demoro a partilhar, pode ser quem for. Talvez por medo de me sentir diminuída ou que a pessoa me trate como uma vítima da vida. É uma coisa física da qual não posso me desfazer. Talvez numa próxima vida, se ela existir. E, se você for meu amigo de fato, vai saber o que é um dia, talvez até já saiba.
         Voltando ao assunto, a amizade verdadeira, baseada no afeto sincero e no respeito mútuo, é extremamente resistente. E, assim como o bambu verde, é a sabedoria em ceder nos momentos em que o vento bate (compreender e respeitar as divergências) que lhe confere esta força. Então não vai ser uma coisa ou outra que vai destruí-la, precisa ser um tufão para consegui-lo.
         Eu estou aberta para os segredos. Sou um confessionário ambulante. E, se permitir, eu quero que seja um dos meus confidentes oficiais também.

domingo, 12 de junho de 2011

Viva-voz

         “Alô?”
         Oi. Tudo bem? Eu liguei para conversar banalidades. Eu não quero dar meus créditos de bandeja para a minha operadora. Eu só queria desabafar com alguém, dizer que estou com saudades suas, qualquer coisa assim. Eu não tenho um pretexto decente para te ligar. Talvez esteja precisando falar sobre alguma falta ou excesso dentro de mim. Numa ideia mais paradoxal: algum excesso de falta. Demasiada escassez de amor, de otimismo, de equilíbrio. Quero um chocolate, de preferência o que fica ao redor da sua boca quando come o doce com as mãos. Quero um abraço, de preferência aquele seu de conchinha. Eu não posso dizer que te amo, mas talvez eu diga. Só pra ver sua reação. Quero saber que desculpa vai inventar para pular fora. E eu? Que argumento usarei para desmentir o já dito para que continuemos amigos? Acho melhor eu desligar. Já falei demais coisas que não ia dizer. Talvez um dia eu te ligue de novo. Talvez decore seu número e queira ligar para compartilhar minhas ideias desconexas. Foi bom ouvir a sua voz. Até mais.
         [Chamada encerrada].

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Pensamentos Noturnos

Como você pode querer me conhecer a fundo se nem eu cataloguei todos os hectares de minha alma? Parece que a cada dia minha alma se expande mais e a autodescoberta perdura. 
Pedindo emprestada uma frase: "Tenho uma única frente, mas muitos versos". Não sou falsa. O cristal tem muitos prismas e cada um brilha a seu tempo, dependendo de qual é atingido pelos raios solares. Eu tenho muitas Saras dentro de mim e é o conjunto delas que forma minha personalidade.
Por vezes escolho o preto ao abrir meu guardarroupa, em outras quero um rosa néon bem chamativo, ou até um decote que ressalte meu busto. Depende do meu estado de espírito. Se você me oferecer um chocolate ou um abraço, pode ter certeza que não vou recusar, a menos que seja um caso muito raro de alguma doença infecto-contagiosa. 
Às vezes o amor me faz alimentar novas esperanças e meu olhar brilha. Já no instante seguinte ele me faz lembrar de frustrações que insistem em perdurar e o sabor amargo emerge até a minha garganta, então destilo palavras ríspidas ou depressivas. É difícil compreender, eu ainda não o consegui. Tem dias que sonho com as alegrias que este sentimento poderia me dar, e em outros fico remoendo os amores que não se materializaram em forma de beijos e abraços e sucumbo à amargura da "não-correspondência".
Eu tenho o péssimo hábito de ser translúcida. E eu sei que às vezes sou muito chata em meus momentos melancólicos. E também sou um porre quando encho o ouvido dos meus confidentes com minhas novas paixões. Eles chegam a ficar em dúvida se se alegram por eu estar transbordando de esperança ou se ficam temerosos que eu me machuque lá na frente. Alguns, os mais íntimos e sinceros, vão logo dizendo: "Não crie muitas expectativas", "Vá com calma" e toda a sorte de equivalentes.
Eu pareço séria com minhas sobrancelhas retas e, frequentemente, a boca fechada, mas se você me conhecer bem (até onde eu já alcancei), vai saber que fico vermelha facilmente e rio de vergonha. Não sou nenhuma escritora-intelectual-carrancuda. Sou doce, falo muita besteira, e também sou tímida. Você só precisa me fazer confiar em você para que eu lhe mostre esse lado. Para isso não é exigido muito: apenas ter a mente e o coração abertos.
Se você quiser, pode vir comigo nessa minha descoberta de mim mesma. Você topa? Então vamos!

sábado, 4 de junho de 2011

Rascunho


         Sobre o quê eu posso escrever? Amores não correspondidos? Não. Solidão? Não. Carência? Dá no mesmo. Xi, meus assuntos estão se esgotando.
         Não quero escrever sobre uma coisa que ainda não tenho nem reviver algo que deve ficar no passado. Você sabe o que isso significa? Mas não importa o assunto, o texto saíra sofrível. Afinal, tanto a carência como o saudosismo (lê-se cutucar velhas feridas) machucam o mesmo tanto.
         Eu não estou sem inspiração. Só não queria escrever novamente sobre estes assuntos que me desgastam tanto. Você entende? Também estou sem paciência para escrever textos neutros que nada têm a ver com o que estou sentindo só para provar que a escritora está ativa dentro de mim.
         Verdade seja dita: foram poucos os textos neutros que escrevi nesta vida. Talvez só as redações para o colégio e olhe, olhe.
         Acho que vou publicar este rascunho só para vocês verem como é difícil a vida de um escritor. Ainda mais a de uma escritora que desde seu primeiro contato com a literatura decidiu escrever sobre si mesma, tendo seus pensamentos e sentimentos convertidos em verso e prosa.
         Nem todas as pessoas agüentam ler textos sobre o mesmo tema por um longo tempo seguido, ainda mais quando se trata de coisas tristes pelas quais todos já passaram ou ainda vão passar. Por isso estou evitando (ao máximo) escrever sobre os temas que citei no início deste rascunho: para poupá-los.
         É isso. Até mais.

sábado, 28 de maio de 2011

Folhas do Calendário

Ela não tem nada.
Nem um telefonema
Nem um abraço
Nem um beijo
Nem um amasso
Muito menos um bem querer.

Ela tem uma lágrima contida
Uma descrença desmedida
Uma raiva ressequida.

As folhas do calendário passam.
O dia dos namorados se aproxima.
E ela não tem ninguém.

Então a lágrima escorre.

domingo, 22 de maio de 2011

Carta Para Minha Criança Interior

Eu sei que não começamos bem. Na verdade, naquela época, eu nem sabia como deveríamos começar. Então vamos voltar ao ponto de partida? Lá vai!
Oi. Tudo bem? Meu nome é Sara. Você quer ser minha amiga? Eu gosto de escrever textos sobre o amor e a amizade, e às vezes sobre sentimentos tristes também, gosto de brigadeiro de colher, gosto de desenhar, gosto de assistir desenho animado, ficar na internet e escutar música. Também gosto de sentir a força das árvores quando estou triste e de escutar o barulho do mar, mas nunca mais fiz isso. Bom, tenho vergonha de dizer isso, mas também gosto de pensar em voz alta, cantar enquanto caminho na rua e abraçar meu ursinho. Ah, você gosta dessas coisas também? Que bom! Do quê eu não gosto? Bom, não gosto de ser acordada, nem de gente me dando ordens: "Faça isso! Faça desse jeito!". Também não gosto quando falam comigo com aquele ar superior, nem quando mexem nas minhas coisas sem minha permissão, nem quando tentam entrar no meu universo à força. Não entendeu? Pessoas assim são aquelas que querem saber seus segredos e pensamentos à todo custo e para isso elas ficam te importunando com perguntas cujas respostas você não quer compartilhar com elas. Eu não gosto de brigas, nem de magoar as pessoas, e por isso eu sofro, pois não consigo colocar certas pessoas em seu devido lugar. É, eu não sei me defender. Você também é assim? E por isso não rebateu minhas críticas e ordens? Desculpe-me. Eu não aprendi  a lidar com crianças. Você ficou com medo de mim? Eu entendo. Eu deveria ter sido mais paciente e tolerante com você. Deveria ter te incentivado e te segurado quando você caísse. Eu quero mudar, acredite. Quero amá-la e cuidar de você. Venha, segure minha mão e vamos caminhar juntas. Como grandes e melhores amigas.

domingo, 15 de maio de 2011

Bandeira Branca

Estes dias estive bastante irritada. Uma raiva que, embora tenha explodido repentina e bruscamente, não surgiu do nada. Foram mil coisinhas, trocentas frustrações que se assomaram com o passar dos dias e culminaram nesta irritabilidade.
A maior parcela de culpa é minha. Eu reconheço. Afinal, a ansiedade e o pessimismo hospedaram-se em meu coração e cérebro, respectivamente. Não que isso sirva como justificativa, mas a demora e as frustrações tornaram-me impaciente e cética.
Ora, desde os primórdios sabemos que, para haver amor, é necessário ( lê-se imprescindível ) dois corações. Entretanto, o amor sempre vem até mim unilateral.  E onde está Afrodite, que permite que Eros (cupido) brinque com meu coração desta maneira?
Também me revoltei com os homens, pelo menos com aqueles que atravessam o meu caminho. Dos que conheço, ou venho a conhecer, 99,99999% não me servem, ou porque são muito folgados ou muito apertados para mim. E o restante, os de qualidade, também não me servem, ou porque são homoafetivos, ou porque não despertam meu interesse por motivos outros, ou porque eu não desperto os deles.
E a vida? Também estou frustrada com ela. Além de não me cativar o bastante para que eu aproveite mais a sua companhia, ainda fica me enrolando, guardando minha alma "gema" em algum buraco de localização desconhecida.
Entretanto, contudo, todavia, não obstante, eu me vejo obrigada a reconhecer que toda esta revolta não me leva a parte alguma. Trocando em miúdos: ficar irritadiça não vai fazer as coisas acontecerem mais depressa.
Porquanto, ergo a bandeira branca e peço paz. Não apenas isso. Suplico também a paciência, a coragem, a perseverança e a fé.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Pura Implicância


         Onde está o meu sorriso? Sei que guardei em algum lugar. Mas onde? Não, eu não o perdi. Mas guardei tão bem guardado que esqueci onde pus. Minha boca está no lugar certo: entre o nariz e o queixo. Mas onde está o meu sorriso? Não é um sorriso qualquer. É aquele sorriso! Aquele bonito, verdadeiro, que convida as pessoas a se aproximarem. Onde o deixei? Os sorrisos que venho esboçando são meio amarelados, sem graça, quadrados, me parecem muito falsos, mesmo quando meus olhos confirmam que estou feliz. Por que? Por que o sorriso dos olhos é bonito e o da boca não? Eu não entendo. Meus dentes são saudáveis, cada um no seu lugar devido. Então por que o sorriso é feio? Por que ele e eu implicamos tanto? Em que ponto da vida nos desentendemos? Às vezes meus olhos brilham de tanta felicidade, mas a boca parece que desaprendeu a sorrir um sorriso bonito. E isso não tem nada a ver com qualquer dor física e emocional. Sempre, sempre e sempre o sorriso me parece falso e feio. Acho que já disse isso. Acho que desaprendi mesmo a sorrir com a boca. Alguém sabe onde posso comprar uma boca que saiba sorrir?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Carrasco


Sou seu pior algoz. O mais cruel, mais atroz, o único onipresente. Trinta e seis horas por dia domino seus pensamentos. Escolho a dedo aqueles que mais te machucam, que mais a deixam ansiosa e exaurida. Sou mais forte que você, e você é tão burra que cada vez me dá mais força, alimentando a mim e aos pensamentos que lhe sugiro. Sua consciência sabe que precisa me dominar, mas você não tem forças para isso. Além do mais, sou como uma criança: quanto mais você tenta controlar, mais eu me rebelo. Você não gosta de mim. Se gostasse, não gritaria comigo nem me criticaria o tempo todo. Só fica aí me dando ordens, dizendo o que eu tenho que fazer e que tipo de atitude e reação devo ter diante de cada situação ou pessoa. Eu odeio ordens! E odeio muito mais críticas!! Você quer que eu seja perfeita, mas eu não posso ser. Ninguém é perfeito. Por que só eu tenho que ser? Você é muito intransigente, muito rígida. Tudo tem que ser do jeito que tem que ser. Que é isso? Por que você não pára um pouco pra se divertir, curtir a vida? Você era tão mais legal quando tinha a minha idade! Era mais feliz! Vai negar? Claro que não. Sabe que é verdade. Mas você cresceu e se tornou um porre! E ainda por cima fica me criticando, me pondo pra baixo pra ver se eu perco a alegria de viver e a espontaneidade. Mas é justamente por isso que me revolto e bato de frente com você: pra ver se consigo tirar essa venda do seu rosto e faço você voltar a ser a menina alegre e espontânea de antes. Você diz que quer ser uma mulher segura, forte, bem-sucedida. Mas do que adianta sê-lo se vive triste e sozinha? Sabia que a alegria e a brincadeira atrai bem mais que a perfeição? Você estipulou regras pra ser feliz: "Eu só vou ser feliz quando for assim e assado porque vou ter isso e aquilo!". Resultado: você não tem nada. Você nem consegue o que quer e nem é feliz. Essa é a vida que você sonhou? Lógico que não! E nem é a vida que lhe desejo. Eu quero que você seja feliz e que seja espontânea, que curta cada momento, mas pra isso você tem que abrir mão dessa rigidez e de todas essas regras de comportamento. Esqueça essa história de ser certinha, ou melhor, esqueça essa obrigação de ser perfeita todos os segundos de sua vida. Veja a vida como uma brincadeira, e não como um trabalho. Veja a vida com meus olhos, isso resume tudo.

Com carinho
Sua criança interior

terça-feira, 10 de maio de 2011

Deveria...

Eu deveria ser...
Vaidosa / sedutora / sensual
Extrovertida
Segura
Forte
Difícil (só um pouco).

Eu deveria saber...
Paquerar
Dizer não
Andar de salto alto
Tomar a iniciativa (sem ser vulgar).

Eu deveria ter...
Mais humor
Mais coragem
Mais desinibição
Mais otimismo.

Eu deveria...
Sonhar menos
Agir mais
Ser menos rígida
Brincar mais
Fazer mais amizades
Ir à festas
Jogar charme.

[Raiva. Virando a mesa.]

Eu não deveria NADA!
Eu deveria apenas ser eu mesma
Sem me preocupar em agradar ninguém.

domingo, 10 de abril de 2011

Antes da Escritora...

       Aos doze anos, em mil novecentos e guaraná de rolha, antes de eu me enveredar pelos caminhos da literatura e me tornar escritora, eu era uma criança pura e inocente e com o coração livre totalmente. Com as histórias, que passei a escrever e as que li/vi/ouvi, fui me tornando cada dia mais refém de um movimento que fez a maior algazarra em minha alma; deixou toneladas de panfletos e cartazes espalhados por toda minha matéria etérea, e a lembrança das buzinas ressoando dentro do cubículo em que minha alma se debate: o Romantismo. 
       Deixei-o entrar por gentileza e ele, como uma visita folgada, começou a mexer nas prateleiras de minha mente e a mudar tudo de lugar. Teve a ousadia, inclusive, de (re)moldar meus devaneios e objetivos. Deixou tudo com semblante poético e sublime. 
       No começo tudo eram flores. Eu estava fascinadamente apaixonada por esta visão mais bonita das coisas. Mas a partir de certo momento, percebendo que na vida real do cotidiano não acontecia o que encontrava nos livros (até mesmo aqueles de autoria própria), deprimi-me. 
       O romantismo continua tão forte e intenso quanto antes, e a depressão cada dia toma proporções mais avassaladoras.
       Estou revoltada com tudo isso. Gostaria de arrancar o Romantismo do meu eu mais profundo, mesmo que isso me custasse algumas vísceras, e ser mais autossuficiente desta baboseira toda de amor. Se para isso eu tivesse que me tornar adepta ao Realismo, que fosse. Só não queria ter meu coração dilacerado novamente pela paixão e ter que, mais uma vez, esquecer o objeto de minha afeição.
       [Suspiro] Outro desabafo que termina com incógnitas.


Desculpem-me a revolta poética, mas precisava regurgitar isto tudo.