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sábado, 3 de novembro de 2018

Deméter estéril


A língua é tão velha, tão velha.
Às vezes tão ressequida.
Às vezes tão dura, que dói dizê-la.
Dói tanto, que nos recusamos a ouvir nossa própria voz.
Há esses dias mesmo:
Dias em que estamos tão saturados de nossa ortografia e sintaxe,
Que sequer aguentamos ver nossa letra no papel;
Não aguentamos sequer ler nossos próprios textos.
Estou assim esses dias: meio ranzinza, meio amarga.
A Musa tem me abandonado mais do que o costumeiro.
Sim, estou velha esses dias.
Muito velha.
Muito íngreme e viscosa.
Quem sabe quando os olhos se remoçarão?

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Corvos e Prostitutas



      Estou cada vez mais convencida de que os onze anos passados no colégio têm sido de pouquíssima serventia para a minha vida acadêmica. Não demorei muito a perceber isto. Bastou assistir a primeira aula, às sete horas da manhã.
      Logo de imediato, tão logo pus o pé numa universidade federal, descobri que nunca soube ler, apenas decodificava palavras. Também descobri que minhas paráfrases são medíocres e minhas interpretações... Deixa quieto. As análises... Meu santinho! Nunca fui cartesiana, metódica. Sou, inversamente, muito intuitiva e passional. A propósito, só sei o que os meus textos querem dizer, porque são criações próprias. Posto isto, se difícil me é saber o que se passa em minha mente durante a elaboração de um texto, imagine só deduzir as divagações de um gênio como Shakespeare. Sem contar que fomos lançados nos braços de Platão, Aristóteles e Homero nas primeiras cadeiras do curso. Oh, presente de grego! Quanto a Saussure e Chomsky, prefiro me abster de fazer quaisquer comentários para não incorrer em pré-conceito linguístico. Vale salientar, todavia, que ainda não fomos jogados aos corvos da sintaxe, embora já tenhamos vislumbrado o vulto de E. A. Poe.
      Às vezes me questiono se reaprenderei a ler de modo razoavelmente satisfatório um dia (de preferência antes de chegar ao TCC) a fim de desenvolver uma visão crítica e conseguir análises textuais decentes (ou prostitutas) ou se esta crônica está fadada a ser uma morte enunciada, visto que as notas do primeiro período ainda não foram lançadas no sistema.
      Fico, ainda, com a dúvida: para quê serviram-me os onze anos de escola?

domingo, 21 de agosto de 2011

Parto


         Literatura é entrega, doação. É abrir-se para receber. É fascínio, amor.  Quando amamos o ofício, a abertura acontece e as ideias vêm.
         Ninguém domina as palavras. Eu tampouco. É ilusão querer que venham as palavras certas e frases impecáveis. Não vem. Logo quando sai de nossa alma, não. São como um feto que acabou de sair do ventre da mãe para ganhar o mundo: vêm sujas de sangue e sebo. Precisamos abrir-nos e aceitar as ideias como vêm. Assim como a mãe ama e aceita aquela criaturinha suja e pura no primeiro instante em que a vê, e mesmo antes disso. Mas com os textos temos a oportunidade e o poder de edição. Precisa só ter jeito. Ei-lo:
         Não importa que as palavras venham maltrapilhas, sujas, feias, escuras; eu as aceito: “Oi, tudo bem? Sente-se! Fico feliz que tenha vindo!” Então conversamos, trocamos confidências, e os sentimentos são verbalizados por elas. Adentramos o espaço uma da outra sutilmente, permitimo-nos este acesso. Durante este processo, nós nos aceitamos e compreendemos. Ao final, mais leves e abertas, permitimo-nos ser moldadas. Enquanto moldo (edito) as palavras, moldo a mim mesma, ou melhor, elas me moldam. Então frutificamos.
         Posso dizer que cada texto é um caso de amor. Primeiro nós nos esbarramos, depois trocamos impressões, então ajustamo-nos, entramos num consenso e encaixamos. Amamo-nos por fim, e damos à luz o texto, fruto maior da paixão pelas letras.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Carta Apelativa


         Mundo das Letras, Cinco de Julho de 2011

         Meu querido Português

         Gosto tanto de ti. Então por que não me ajudas um pouquinho? Tu sabes a norma culta, aquela velha ranzinza que quer que tudo seja à sua maneira? Pois é. Ela insiste em colocar todas as pessoas na minha frente! Absurdo! Até mesmo quando é minha própria boca quem pronuncia os verbetes, o você/ele vem obrigatoriamente antes de meu singelo eu. E, se eu insisto em me destacar tomando a dianteira, ela logo vem me sublinhar com aquela tinta vermelha. Arbitrária! Não tens como dar um jeito nela? Eu queria me mostrar para o mundo, mas com todos esses vocês e eles antes do meu eu, sem contar as conjunções, verbos, adjetivos, substantivos e advérbios que me cercam por todos os lados, acima da minha cabeça e abaixo de meus pés, enlaçando todos os meus membros, eu não tenho como. Fico muito escondida no texto; transparente no contexto.
         Com tantas reformas ortográficas, ainda não se sucedeu uma que seja a favor do primeiro pronome pessoal do caso reto (singular). Veja bem: primeiro. Então por que ele tem que vir depois? Eu não entendo.
         A norma culta é tão abusada, não acredito que ela seja tão altruísta a ponto de sempre colocar os interesses dos outros antes do seu. À propósito, ela é o oposto. Caso contrário, não imporia tantas regras e nem seria tão taxativa: “Ou é do meu jeito ou está errado!”. Ela é do tipo que manda fazer uma coisa e faz outra. Que tipo de exemplo ela está querendo dar para os novos desbravadores da língua? Nós já somos antigos nesse ramo e conhecemos bem a peça. Mesmo assim não me conformo. Nem me conformarei nunca.
         Não sou dada a desregramentos, mas gostaria que o meu eu tivesse um pouquinho mais de espaço entre as reticências para mostrar a plenitude e a beleza de suas duas letras.
         Era só isso que eu tinha a dizer.

Com estimas,
Sara Regina Carvalho

domingo, 20 de março de 2011

Declaração à Língua

         Amo o português (o idioma) pelo simples prazer de amá-lo. Reconheço, sim, eu reconheço suas complexidades. Mas você, que percorre estas linhas, vai me dizer que não sente um indubitável deleite ao ler um texto um tanto quanto romanceado, onde frases bem vestidas e elegantes bailam sobre o papel?
         Eu confesso – em qual mídia você quiser, ou mesmo oralmente – que às vezes as ideias surgem tão freneticamente em meu pensamento consciente que sou acometida por uma leve (para atenuar meu pecado) preguiça. Porquanto, deixo a mão correr livre e não me preocupo em elaborar melhor as orações.
         Sinto meu rosto enrubescer diante da vergonha por tal hábito, mas preciso reconhecer: estou dando um péssimo exemplo, principalmente por encontrar-me na condição de escritora.
         O português, apesar de às vezes – quase sempre – eu não lhe dar a atenção e o carinho devidos, sabe que eu o amo com toda a força do meu ser. Sabe, outrossim, que nada vai furtar o brilho dos meus olhos e o júbilo de minh’alma ao escrever um texto como este ou qualquer outro feito com amor.
         Antes de escrever o último ponto, quero agradecer-lhe por fazer-me companhia há já metade de minha vida. Crescemos bastante juntos e esta situação perpetuar-se-á. Ponto final.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O que me Motiva a Escrever

         Amar mergulhar nas histórias dos personagens. Sentir-me na pele deles;
         A vontade, ou melhor, o sonho que tenho desde a infância de ser escritora profissional;
         Um desejo inerente de ajudar as pessoas através das histórias. Não que eu queira escrever livros de auto-ajuda. Não. Eu quero escrever romances que, de alguma forma, ajudem as pessoas a crescerem;
         Observar o fascínio que grandes escritores como Paulo Coelho e Dan Brown exercem sobre as pessoas;
         Sentir-me revitalizada e plena cada vez que me dedico com constância a uma história;
         A felicidade que sinto cada vez que concluo um trabalho e percebo que ficou bem feito. Não apenas por elogios que possa vir a receber, mas também por uma sensação que experimento em meu íntimo;
         Saber que escrever é minha vocação e missão neste mundo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Escrivaninha

Este texto é um pouco antiguinho, mas é o registro de um momento muito importante na minha vida. Lembrando sempre que o texto é fictício, só a emoção de ganhar a primeira escrivaninha que foi real.
Quero dizer aos escritores que o que nos move é justamente o sonho. E é o amor pelo que fazemos que torna nossos textos bons, além de muito, muito trabalho.
Uma ótima quarta a todos!
Abraços!

A Escrivaninha

      Ela chegou em casa suada, foi um jogo difícil. Ela e as amigas enfrentaram umas grandalhonas numa partida de vôlei e venceram! Ela seguiu para o banheiro, tomou uma ducha e foi para o quarto.

      Ao abrir a porta, qual não foi sua surpresa. Ela estava lá: uma escrivaninha novinha! Cadeira chique, porta-lápis e uma luminária. Ela, Mariana, correu para a sala, gritando de felicidade.
      A empregada a olhava admirada, ou seria assustada?
      A mãe de Mariana assistia a novela das oito, esparramada no sofá, enquanto o pai calculava as contas do mês.
      Mariana entrou alvoroçada na sala!
      - Quando ela chegou? - perguntou Mariana.
      - Ela quem, meu amor? - o pai inquiriu, sem tirar os olhos da papelada.
      - A escrivaninha. Quando ela chegou? Na hora que eu cheguei da escola ela não estava lá no quarto.
      - Nós a compramos hoje à tarde e escondemos no escritório do seu pai. Aproveitamos que você foi jogar e a colocamos no seu quarto.
      - Vocês são os melhores pais do mundo!! Vocês vão ver! Eu vou ser uma grande escritora! Meu nome vai aparecer nos jornais, televisão, internet!
      - Vamos com calma, meu amor.
      - É, não queremos que sofra.
      - Eu não vou sofrer! Eu vou ser muito feliz!  E famosa! - Mariana foi correndo para o quarto estrear sua escrivaninha.
      - Tá bom, filha - disse a mãe, vendo a filha se afastar.
      - Deixa ela sonhar. Todos nós precisamos de um objetivo na vida. Se ela persistir, porque talento ela já tem, tenho certeza que será uma grande escritora.
      - Pode ser.
      Ambos continuaram com o que estavam fazendo antes do foguete eufórico chamado Mariana entrar na sala.