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domingo, 7 de janeiro de 2018

Do desenho que lhe prometi


Acabo de queimar o desenho que lhe prometi. Eu sei, eu o prometi a você. Também sei que, quando o prometi a você, meu sentimento ainda parecia recíproco. Tanto parecia, que convenci-me a desenhá-lo. Agora, vejo o fogo alto queimá-lo. Em breve será pó, exatamente como as minhas esperanças. Queima, coraçãozinho, queima. Queima cada lágrima, cada sonho.
Enquanto observo o laranja quente do fogo, lembro com exatidão o quanto você ficou empolgado quando viu o desenho e a carinha que você fez ao pedi-lo para mim. Eu pensei, sincera e ingenuamente, que você soubesse o que aquele desenho representava e que, justamente por sabê-lo, você o queria para si. Mas você não sabia, ou fingiu não saber, que eu queria para nós exatamente aquilo que eu havia traçado e colorido no papel. Eu, porém, tinha plena consciência disso e, agora que este amor morreu antes mesmo de nascer, não tenho mais motivação para concluir o desenho. Não tenho motivação para alimentar um sonho que era só meu. Então, resolvi rasgá-lo e queimá-lo. Afinal, se você não quer a situação que o desenho ilustra, também não darei minha arte a você. Prefiro extingui-la, assim como extinguirei o sentimento que tenho por ti.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Despedida dos Sóis




      Ela chegou às dezessete horas de um fim de tarde nublado e apático. Chamou pelo parceiro, mas aparentemente ele não havia chegado ainda. Dirigiu-se à cozinha a fim de fazer um lanche e deparou-se com um bilhete amarelo na porta da geladeira. Sua tez adquiriu a mesma tonalidade ao ler seus dizeres:

Cansei de fazê-la feliz e você
não fazer o mesmo por mim.
Adeus!

      Ela releu o bilhete várias vezes. Não podia crer. Ela lhe dava atenção... Bem, nos últimos meses andara bastante ocupada. Mas ela lhe dera presentes caros. O problema era dele se não gostara de nenhum. E agora deixara aquele bilhete ali...
      Foi um adeus seco. Sem romantismo nem drama; sem promessas de mudança ou juras de amor; sem gritos ou lágrimas; tampouco o sexo depois da reconciliação. E ela também secou com a despedida dos sóis. Secou de tanto chorar.

sábado, 18 de agosto de 2012

Desaguar



     
 Os beijos se foram. Não, os beijos ficaram. Mas deveriam ter ido, assim como você partiu. Ou deveria ter partido no exato instante em que terminamos.
      Terminamos? Então por que insisto em lembrar-te? Lembrar... Como lembro. Esquecerei um dia? Por certo, mas ainda não.
      Penso em você com carinho. Às vezes, com raiva. A contradição do término. Mas toda contradição se dissipa. Disssipa?
      A mente sabe o que quer. O coração, o que deseja. Eu, embebida n’ambos, entendo o que sinto. Se sinto, é porque senti três vezes mais algum dia. Mas não quero sentir mais. Não por você.
      Esquecê-lo tento. Quanto mais tento, lembro.
      O que me resta é escrever. Desaguar por estas linhas sentimentos evidentes ou marginais para que saiam de mim. Reconheço-os, mas prefiro que partam.
      Pretendo terminar a faxina em breve. Deixar o quarto arrumado e limpo para o novo inquilino. Costurar mais alguns retalhos à colcha para aquecer melhor o Amor, que virá.
      Leve a dor desta saudade com você. Quero ficar apenas com as lembranças boas.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Corações Desolados

     É incrível como, a partir do momento em que nos apaixonamos, já tomamos posse do outro, mesmo que ele não saiba disso. Em nossos pensamentos mais secretos e em conversas informais com pessoas amigas na ausência do nosso objeto de afeição, chamamos o mesmo de "meu branquinho", "meu amor", "minha linda", "minha gatinha" e etc. Queremos que a pessoa seja nossa no sentido mais possessivo do pronome, mas temos, muitas vezes, um medo absurdo de declararmos o nosso amor, por quaisquer que sejam os motivos.
     Um dia, não cabemos mais dentro de nós (nossa alma espreme-se no cubículo chamado corpo humano com a paixão) e regurgitamos este sentimento sobre a pessoa. Às vezes temos a sorte (uma grande sorte) de a pessoa dizer que nos corresponde. Então começa-se um relacionamento amoroso qualquer, variando de nome de acordo com a intensidade e o interesse em assumir compromissos de ambas as partes. Mas de uma coisa pode ter certeza: são beijos, muitos beijos, alguns dignos de serem indiciados por crime de atentado ao pudor; mãos e mais mãos que dançam frenéticas ao som de algum quarteto de hormônios, e outras coisas mais que invadem o eu mais íntimo de cada um.
     O período passional é envolvente e gostoso, isso é indubitável, mas nem sempre as histórias reais tem um final feliz. Como resultado, temos corações partidos e um grande abismo que brota entre eles. Alguns desses corações, mesmo danificados, conseguem seguir adiante, recuperam-se, e são até capazes de doar-se novamente para outro afeto. Outros, entretanto, acorrentam-se voluntariamente a amores falidos e negam-se ferrenhamente a desviar os olhos para outro afeto em potencial.
     Alguns amam tanto um amor extinto (ao menos pela outra parte), que passam a odiá-lo, pelo simples fato de ele não mais existir. E este ódio pode ressoar de diversas maneiras, mas sempre de forma dolorosa. Quando a pessoa não machuca a si próprio, seja fisicamente, emocionalmente ou psicologicamente, fere a outrem. Como vemos todos os dias nas mídias casos de pessoas que mataram ou tentaram assassinar o ex-companheiro, ou, no mínimo, fez o dito refém só para causar-lhe um pouco de terror psicológico. Diga-se de passagem, o mesmo terror ao qual elas se submetem dia e noite ininterruptamente.
     Um déficit muito grande de auto-estima é a principal causa desses distúrbios decorrentes do pós-relacionamento. Quando a pessoa não se ama, ela simplesmente se considera indigna do amor. E se ela encontrou um bendito que corresponde (ou correspondeu) ao seu amor, então, em sua mente, só aquela pessoa é capaz de amá-la e ela se prende a ele com unhas e dentes. 
     Sendo assim, o único remédio possível para todos os corações desolados é preencher-se com amor-próprio e, quando surgir um outro amor-correspondido, que o afeto deste configure apenas como um reforço, um extra, jamais como o substancial.

terça-feira, 22 de março de 2011

Pó de Giz

Eu quero você,
Mas não posso te querer.
E agora, o que há pra se fazer?
Como posso o amor desdizer?

Na paixão eu te fiz
E você também me quis.
Mas tudo acabou num triz
Como pó de giz.

Ainda sinto arder o nariz
E minhas mãos estão sujas de giz.
Mas faltou água na caixa
E não tem mais na lata.

Como posso limpar-me de você?
Como querer não mais te ter?
Não quero te ofender,
Mas no passado quero te prender.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Adeus


Hoje pensei em você. Pensei, mas não deveria ter pensado. Estou tentando esquecê-lo, afinal de contas.
Hoje chorei lembrando um gesto seu, mas não queria ter chorado. Quem chora sente saudade. Quem sente saudade quer o ser objeto de seu saudosismo perto outra vez.
Hoje e nos últimos dias desejei trazer você de volta para minha vida, mas não deveria querer. Você me traz mais angústia do que alegria.
Hoje sonhei com seu beijo, mas não queria sonhar. Quem sonha quer realizar e eu não devo beijá-lo de novo.
Amanhã, depois de amanhã e para sempre quero conseguir tirá-lo do meu pensamento.
Amanhã e num futuro breve quero conseguir deixá-lo no passado.
De agora em diante e para sempre quero que seja uma lembrança de um momento bom, nada além disso.
Adeus!