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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Carta de Dispensa



      João Pessoa, 14 de fevereiro de 2013.



      Senhor Narrador


      Venho através desta comunicar-lhe que não estou satisfeita com os seus serviços. O senhor, por motivos que me são desconhecidos, tem se mostrado deveras preguiçoso, formulando frases óbvias e superficiais. No momento de sua contratação, eu pessoalmente lhe dei todas as informações cabíveis e necessárias acerca do enredo e das personagens para que o senhor tivesse condições de construir um texto profundo e instigante, honrando o cargo de narrador onisciente que lhe fora conferido. O senhor, todavia, mostrou-se mesquinho, retendo as informações para si.
      De minha parte, reconheço que lhe dei orientações precisas para ser misterioso, para usar de metáforas e demais figuras de linguagem a fim de dar um caráter onírico ao romance. Porém, o senhor há de convir que entre mesquinhez e mistério existe uma notória diferença.
      Leitores contratados para acompanhar o processo de criação do romance são unânimes em reclamações quanto ao seu comportamento linguístico e literário e sugerem transformações urgentes. Eu estou de pleno acordo com eles, pois o senhor tem feito jus a tais reivindicações.
      Em virtude dos inúmeros e-mails que lhe mandei convocando uma reunião sem, contudo, obter resposta, fez-se necessário recorrer a medidas mais imperiosas. Portanto, esta é uma carta de dispensa.
      Tão logo o senhor devolva este documento assinado, eu entrarei em contato com um jornal de grande circulação para colocar um anúncio divulgando a abertura de uma vaga para o cargo de narrador onisciente.
      Fugindo dos moldes formais desta, confesso: rezarei para conseguir um narrador mais eficiente e disposto a trabalhar que o senhor.


      Atenciosamente
      A Escritora


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Corvos e Prostitutas



      Estou cada vez mais convencida de que os onze anos passados no colégio têm sido de pouquíssima serventia para a minha vida acadêmica. Não demorei muito a perceber isto. Bastou assistir a primeira aula, às sete horas da manhã.
      Logo de imediato, tão logo pus o pé numa universidade federal, descobri que nunca soube ler, apenas decodificava palavras. Também descobri que minhas paráfrases são medíocres e minhas interpretações... Deixa quieto. As análises... Meu santinho! Nunca fui cartesiana, metódica. Sou, inversamente, muito intuitiva e passional. A propósito, só sei o que os meus textos querem dizer, porque são criações próprias. Posto isto, se difícil me é saber o que se passa em minha mente durante a elaboração de um texto, imagine só deduzir as divagações de um gênio como Shakespeare. Sem contar que fomos lançados nos braços de Platão, Aristóteles e Homero nas primeiras cadeiras do curso. Oh, presente de grego! Quanto a Saussure e Chomsky, prefiro me abster de fazer quaisquer comentários para não incorrer em pré-conceito linguístico. Vale salientar, todavia, que ainda não fomos jogados aos corvos da sintaxe, embora já tenhamos vislumbrado o vulto de E. A. Poe.
      Às vezes me questiono se reaprenderei a ler de modo razoavelmente satisfatório um dia (de preferência antes de chegar ao TCC) a fim de desenvolver uma visão crítica e conseguir análises textuais decentes (ou prostitutas) ou se esta crônica está fadada a ser uma morte enunciada, visto que as notas do primeiro período ainda não foram lançadas no sistema.
      Fico, ainda, com a dúvida: para quê serviram-me os onze anos de escola?