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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Manda teu coração à merda


            Pega teu coração e levanta-te. Ninguém quer saber como tu andas, apenas que andes. Levanta-te! Que importa se precisas costurar ou ninar teu coração? Ninguém está interessado em tuas necessidades. Tua fragilidade? Pouco importa.  Pega teu coração e levanta-te. Caminha. Não importa se te desmanchas em lágrimas e sangue. Caminha. Mesmo que pedaços do teu coração jazam pelo caminho. O mundo não para, para que possas remendar-te. Caminha. Nem mesmo teu objeto de afeição se importa se estás agonizante. Caminha. Mesmo que teu coração vaze e se esforce para continuar vivo. Caminha. Obriga-te a sorrir. O mundo não é obrigado a suportar tua dor. Caminha. Teu coração não demora a extinguir-se de todo. Caminha. Mesmo que teus sonhos idiotas persistam. Caminha. Mesmo que teus pés já tenham atrofiado. Caminha. E, quando não mais puderes caminhar, arrasta-te, como um verme. Sê menos que um verme, pois até o verme é mais feliz que tu. Vamos! Manda teu coração à merda! Um dia aprenderás a amar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ode ao Amor que Nunca Hei de Amar

Já o amo, mas o amar sucumbirá sem ser amado.
O objeto de afeição, tão puído, esfarelará.
O tinteiro para qualquer ode nunca usado.

As palavras apenas imaginadas
Sumirão do papel que jamais tirei da gaveta.
A árvore, sua mãe, a gestá-lo não chegou.

A ideia nasceu destinada a perecer
Tão logo atingisse a consciência.
Se me ponho a escrever,
Esvai-se a sapiência.

A semente estrangulada é.
A ode que deveria advir destas linhas
Morre sem ser proclamada.
A arte é mesquinha.

domingo, 3 de julho de 2011

Breu Completo


         Amanheceu em minha alma. Porém, ainda continua escuro. Acordei exaurida. O novo não despertou em mim nenhuma esperança. Como o vento me trouxe em alguma feita: “Acredito no amor, mas não que ele seja pra mim”.
         Amanhece, anoitece, mas não faz diferença nenhuma. Continua escuro e desesperançoso. À noite, todos os gatos são pardos, mas eu sou invisível mesmo ao sol do meio-dia.
         Pensei que só os heróis fantásticos tivessem o dom da invisibilidade. Mas eu sou translúcida, vagueio por entre as pessoas que me atravessam indiferentes e não tenho super poder nenhum. Nem ao menos o de reverter a invisibilidade. Isso não é um dom, é uma condição imposta. Imposta por quem? Pelo destino? Pelo carma? Pelo capricho dos deuses?
         Eu ainda quero acreditar. Mas a minha esperança é tão ínfima, microscópica. Não acredito em milagres, mas só um para me fazer crer que o amor seja pra mim também.
         Meu corpo tem vinte e poucos anos, mas meu espírito deve ter uns mil, para estar tão exaurido e descrente. Eu não o culpo. Parece mesmo que o amor nos excluiu de suas responsabilidades.
         Um dia, logo no começo de minha vida de escritora, escrevi-lhe uma carta perguntando por que ele havia sumido. Ele até respondeu a carta, mas nunca veio. Só deu algumas passadas rápidas para dar-me uma alegria ínfima e depois deixar uma dor dilacerante no meu peito. Mas não vou escrever outra carta pra ele, é perda de tempo.
         Vou ficar aqui com minha velha conhecida: a desesperança. Às vezes ela fica feliz com uma lata de brigadeiro e me dá uma trégua de algumas horas, até de alguns dias, quando está de bom humor.