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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Entre dedos


Sonhei contigo esta noite.
Vi, nitidamente, os seus dedos longos e ossudos.
Vi o rosado da pele e cada dobrinha desta.
Senti os seus dedos acariciando os meus suavemente.
Suavemente também, enrosquei um de meus dedos num dedo seu.
Quanto afeto a percorrer nossas juntinhas dos dedos!
E eu, que tive essa vivência onírica linda, acordei ainda em vivência,
Sentindo o seu e o nosso carinho em todas as minhas juntinhas
E, mais ainda, junto ao coração.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Transição Relutante


Ela era uma menina e seus sonhos eram doces e possíveis, mesmo que a realidade não quisesse admitir isso. Gostava de ser menina, pois a vida parecia ser bem mais bela e promissora pela ótica de uma alma infante. Seus olhos brilhavam mais diante de uma nuvem fofinha ou mesmo estratificada, ou de uma casca de árvore com todas as suas reentrâncias. O mundo era simplesmente incrível e perfeito!
O mundo - pela ótica dos adultos - ao contrário, é bastante cruel. Palavras doces com toques frequentes de crítica, olhares de reprovação e narizes tortos impeliam a menina a crescer.
Ela até queria ser uma mulher forte e bem-sucedida, mas tinha medo. Temia que a maturidade atropelasse seus sonhos e os levasse a óbito. E seus sonhos era tudo que ela tinha. Eles eram a roda que movia seu coração e fazia andar suas pernas. Como ela poderia percorrer os anos que ainda lhe restavam sem suas pernas?
Não obstante todas as infelicidades prometidas pela maturidade, ela queria crescer. E até conhecia uma mulher que conservava a alma de menina. E ela queria ser como esta. Contudo, tinha medo de não conseguir e se tornar uma mulher fria que só pensa em trabalhar pra pagar as contas e perder totalmente a capacidade de sonhar e sorrir.
Confusa e sem rumo, esta menina está aqui na minha frente sem saber que estrada tomar: viver um sonho ou sonhar em viver?
Eu não sei o que dizer a ela, mas sei que em breve descobriremos como desnudar este questionamento para encontrarmos a resposta.

domingo, 6 de março de 2011

Sonhos Sabotados


         Sonho em ser uma fada azul, mas não tenho asas. Então mudei de opinião. 
Agora quero ser uma princesa e usar um vestido cor de rosa. Mas meus pais não são reis e aquele vestido parece ser muito calorento. Mudei de novo. Agora sonho em ser uma psicóloga de animais. O problema é que não entendo nada que eles dizem!

         A menina cresceu e seus sonhos também.

         Hoje, aos quinze anos, sonho em ser uma atriz famosa. Só que na minha cidade não tem nenhum curso de teatro que eu possa bancar. Então mudei de ideia. Agora quero ser a garota mais popular do colégio. Mas, não importa o que eu faça, continuo invisível. Mudei de novo. Meu sonho é ir morar sozinha para ficar livre da chateação dos meus pais. O problema é que não tenho emprego. Como vou bancar as contas no final do mês? Droga!

         A adolescente cresceu e tornou-se uma mulher.

         Tenho vinte e poucos anos agora e sonho em ser uma escritora bem sucedida. Mas meus textos ainda não são bons o bastante para serem publicados. Mudei minhas metas. Sonho em encontrar um homem bacana e ter um relacionamento sadio e duradouro com ele. Só que os homens de qualidade que conheço são ou comprometidos, ou padres, ou gays. Mudei. Agora quero fazer faculdade de Letras, mas ainda não concluí o Ensino Médio.

         Aos quarenta anos, alguns raros sonhos desta mulher haviam se realizado, mas ela continuava a sonhar.

         Conheci um homem muito bacana na faculdade de Letras e estamos juntos há quinze anos. Publiquei algumas obras de lá para cá e tenho um filho com dez anos. Agora sonho em ocupar uma cadeira na ABL (Academia Brasileira de Letras). A questão é que não sei se meus livros são tão importantes assim para a literatura nacional. Também sonho que meu filho seja um homem de qualidade, uma pessoa de caráter e humana. Tenho ciência, todavia, que isso não depende só de mim. Ele será responsável por todas as escolhas que fizer.

         Numa quarta feira chuvosa, a senhora, já com oitenta anos, lembrava-se de seus sonhos.

         Há dois anos tornei-me uma imortal da ABL. Meus filhos são homens ímpares e meus netos são umas gracinhas. Hoje o meu único sonho é que eu tivesse ido atrás de todos os meus sonhos. Não importa se conseguiria, desde que lutasse por eles. Mas ao invés disso coloquei um empecilho para cada um deles. Admiro com toda a minha alma os poucos que não deram ouvidos aos meus medos e se realizaram. Hoje cá estou eu com meus cabelos brancos rezando para que meus filhos e netos não cometam o mesmo erro. Nem qualquer outro ser vivente, inclusive você que está acabando de ler estas linhas.







quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Presente Encantador


         Foi um sonho lindo! Inesquecível! E a menina ficou extasiada com um sonho tão maravilhoso!
         Nele, ela estava em sua casa quando se voltou para o lado de fora e viu um céu estreladíssimo! Uma imagem memorável, sem dúvida.
         De súbito, viu uma estrela cadente e disse para o rapaz ao seu lado: “Corre! Vamos fazer um pedido!”.
         Assim que saíram, a estrela riscou duas iniciais, que logo se transformaram nos nomes dela e de uma pessoa muito especial (outro rapaz).
         O que aconteceu a seguir foi uma mistura de fantasia e realidade. Na terra, as plantas, os prédios, as pessoas, tudo era de verdade. Já as coisas que se passavam no céu eram todas em desenho animado.
         Foi quando ela percebeu um gracioso aeroplano cor de rosa e, por onde ele passava, deixava como rastro uma frase sobre ela e o objeto de sua afeição. E ela saía correndo pelo condomínio no qual morava, seguindo o aviãozinho para ver qual seria a próxima frase, já que as árvores insistiam em cobrir seu campo de visão.
         Em determinado momento, ela, emocionada, começou a chorar de alegria.
         Então olhou pra cima e viu várias pessoas (em desenho) aparecerem por entre as nuvens e virem em sua direção, cada qual carregando uma plaquinha com dizeres sobre ela.
         Nesse instante, ela ajoelhou-se no chão chorando e dizendo: “Que lindo! Que lindo! O melhor presente que recebi na vida!”
         Entretanto, os sonhos acabam e os olhos se abrem.
         Ignorando o fato de ser muito cedo, ela, tão logo acordou, correu para o notebook com a pretensão de registrar o sonho antes que o definhar do dia apagasse algum detalhe de sua memória.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Lágrimas Que Se Vão

Este texto é meio antiguinho (2008), mas fiquei tão feliz em encontrá-lo que decidi compartilhá-lo com vocês. Beijos!




Lágrimas Que Se Vão

O escritor calou-se, deixou cair a caneta bico de pena sobre o papel. Automaticamente perguntou, não sabia bem a quem, se ao vento que entrava naquele momento pela janela, se à gueixa ou a ele mesmo: “Mas como as suas lágrimas se vão comigo?”. A caneta, ficando de pé, escreveu no papel o seguinte: “Você me deu um amor”. Assustado com o momento de vitalidade que a caneta acabara de viver, o escritor leu o que tinha escrito até então.
A gueixa olhava as cerejeiras em flor da janela de seu quarto. Estava pronta para mais uma apresentação. Faltava apenas alguns minutos para descer e ir entreter os cavalheiros. Seu desejo mais íntimo, velado para outrem, era estar sob uma daquelas cerejeiras em flor com alguém que a amasse com suas inseguranças e medos, como o casal que ela via da janela.
Alguém veio chamá-la e ela desfez-se de seus sonhos. Os cavalheiros queriam vê-la esbelta e com o semblante resplandecendo alegria. Só podia sofrer abertamente em suas horas de descanso. Durante a apresentação, só podia mostrar alegria, não importando se fosse falsa ou não – bastava ser convincente.
Subindo ao palco, a gueixa soltou seu canto de sereia, tinha uma voz suave e melodiosa. Dançava com sensualidade, em movimentos delicados e femininos.
Um cavalheiro em especial olhava-a com um olhar diferente do olhar dos demais. Ele olhava-a na alma, jogava-se pela janela de sua alma: seus olhos. A gueixa percebeu seu olhar penetrante, a circunstância, entretanto, impedia-lhe de dar atenção a apenas um cavalheiro.
Ao final da apresentação, a gueixa subiu novamente ao quarto que lhe servia de camarim. Sentou-se diante da penteadeira e começou a retirar a maquiagem. A porta foi aberta lentamente, o que fez ecoar no ar um barulhinho. O cavalheiro que a olhara com outros olhos estava ali, parado na porta, olhando-a com o mesmo olhar singelo e terno.
A gueixa pediu que se retirasse. O conhecia de outros tempos, de um passado em vias de ser esquecido. Ele continuou parado na porta, baixava a cabeça e levantava, algo engasgado queria sair. Ela insistia para que ele saísse. Ela levantou-se, tencionava fechar a porta, deixá-lo parado diante da porta fechada. Ele falou-lhe no último minuto, se não fosse naquele momento, perderia a coragem de tentar em outra ocasião: “Perdoe-me. Perdoe-me por ter sido um covarde. Suas palavras me assustaram, por isso não disse o que realmente sentia. Eu a amo”. A gueixa deixou escorrer uma lágrima por sua face ainda branca do pó de arroz. Ele a abraçou e beijou-a. 

O escritor pegou sua caneta e escreveu no papel: “Este amor sempre foi seu, eu apenas o revelei aos seus olhos e ao seu coração”. A caneta não mais mexeu-se sozinha, mas em seu coração o escritor sentiu a felicidade da gueixa.